Um futuro melhor?

iG Minas Gerais |

Já era tarde. A família se preparava para dormir quando o menino, o caçula da casa, resolveu que era momento para discutir política. Por lá, o assunto vai e volta aos diálogos. Estava em alta em tempos de eleição. Mas, naquela dia, o garoto encasquetou. E, quando ele colocava alguma coisa na cabeça, era difícil tirar. Os pais sabiam muito bem disso. Curioso e falante, aos 9 anos, buscava sempre respostas. – Mãe, em quem você vai votar para presidente da República? Mal sabia ele que estava cara a cara com uma indecisa, desacreditada em relação ao futuro do país e, consequentemente, ao futuro dos próprios filhos. O perfil de eleitor que vem sendo disputado a tapa nesta altura do campeonato. Desanimada, ela respondeu: – Ainda não sei, meu filho. Minha vontade era de não votar nem na Dilma, nem no Aécio. Há muitos ataques, muitas ofensas. Mas, como não votar não é bom exemplo, ainda vou me decidir. Indignado e demonstrando certa impaciência, o pequeno se agigantou e repreendeu a mãe. – Até agora? Mamãe, o voto é muito importante. Se você anular, vai acabar ajudando quem está liderando. Precisa se decidir. O papai, por exemplo, vai manter o mesmo voto do primeiro turno, exemplificou. A mulher sabia que o garoto assistiu a programas eleitorais ao lado do marido e chegou a acompanhar um debate na televisão. Descobriu, mais tarde, que o assunto foi amplamente discutido na escola e que, por lá, andaram simulando uma eleição para que os alunos pudessem votar. Segundo o próprio garoto, uma forma de alimentar a democracia. – Mãe, acredita que a Amanda (referiu-se à irmã que estuda na mesma escola) votou no Aécio porque acha ele bonito? E o meu colega, o Heitor, que foi de Dilma só porque o pai dele vai votar nela? Teve menino da minha sala que até brigou. As crianças também se confundem, assim como os adultos. Em outros momentos parecem agir como eles. Sei lá, acho que é assim”, comentou com ar de gente grande. A mulher olhou para o filho cheia de ternura. Também se encheu de orgulho e alongou a conversa sem pensar no horário. O menino tinha sonhos que incluíam um país melhor, com menos corrupção, sem assaltos ou crianças na rua. Queria viver num lugar com água em abundância. As crianças planejam, com convicção, o que vão ser quando crescerem, mesmo que os planos incluam ser super-heróis. Há, na infância, outra forma de olhar o mundo, por mais que esse olhar seja influenciado pelo exemplo de adultos. Ainda há leveza. Existe esperança. Entre os meninos de hoje – que parecem “já nascer sabendo de tudo um pouco” –, ainda vigora certa ingenuidade de quem não conhece conchavos políticos, taxas, desemprego, inflação e tantas mazelas mais. Em 1982, eu tinha pouca idade e uma esperança danada de que, quando crescesse, viveria em um país incrível. Tancredo Neves e Eliseu Rezende disputavam o governo de Minas. Meu pai, minha mãe ou um dos meus irmãos (não tenho certeza de quem) me levaram a um comício na Savassi. Recordo-me de estar na multidão. As eleições diretas eram uma conquista e assunto muito discutido na minha casa, embora eu achasse complicado. Para a criançada de hoje, os conceitos são mais simples. Elas entendem melhor o papel de um presidente, de um governador... Não só ouvem, mas participam de todas as conversas, discutem em sala de aula, pesquisam na internet, assistem a tudo na TV. Ainda em seu mundo infantil, elaboram mais e melhor. Depois de amanhã, terão um novo presidente e lembranças de uma eleição acirrada, emocionante. Espero que essa turma possa crescer sem deixar de sonhar.

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