Segundona brava

iG Minas Gerais |

Hélvio
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Apesar de estar envolvida com a cobertura das eleições até o pescoço, sou incapaz de prever o resultado do próximo domingo. Encontro todos os dias pessoas que acreditam na vitória de um ou de outro, que se esforçam para ganhar pelo menos mais um votinho para seu candidato e assim garantir alguma vantagem, que se recusam a ensaiar qualquer atitude que pareça negativa, mas saber mesmo, ter certeza absoluta, ninguém. E o suspense vai ganhar cores de tortura entre as 17h e 20h do dia 26, intervalo entre o começo da apuração dos votos e o fechamento das urnas no Acre e em parte do Amazonas, quando, sem nenhuma preparação, vamos saber quem é o novo presidente. Não vai dar tempo de ir se decepcionando aos poucos ou se enchendo de esperança em pequenas doses, de ir esvaziando a expectativa ou consolando todo o empenho de até agora há pouco. Vai ser na lata. Vai ser com emoção. O que tenho convicção, segurança plena e total, é que a segunda-feira vai ser de ressaca e ressentimento. Será preciso mais que vontade e generosidade para esquecer toda a violência verbal, toda a intransigência, toda a selvageria que se instalou nos últimos meses. Como vai ser engatar uma conversa com o vizinho que, de repente, exibiu sem nenhum acanhamento seu sotaque reacionário? Será que vai ser natural como sempre foi abrir seu coração para a amiga que se encarregou de espalhar todos os boatos que encontrou pela internet para demonizar o outro lado? A lista de convidados da festa de 15 anos da filha vai caber a parentada que só faltou sair no braço por desacordos políticos? A relação com o professor que aposentou seu conhecimento histórico em troca da defesa cega e surda de um candidato tem alguma chance de se manter intacta? Vai dar pra chamar pra um chope quem, por conta do seu voto, colou em você as etiquetas de vagabundo, corrupto, comunista, pobre-coitado, esquerda caviar, ladrão? Vai dar pra dividir uma pizza com quem, por conta do seu voto, colocou você na prateleira dos preconceituosos, higienistas, coxinhas, elitistas, individualistas, alienados? A segunda vai nascer trazendo com ela uma multidão de derrotados. Seria bom que esse volume absurdo de frustração fosse convertido em vigilância e desejo para que o novo governo, vermelho ou azul, faça o que for preciso. São os nossos próximos quatro anos. Torcer para dar errado só pra provar que estava certo é insistir na tolice desses dias selvagens.

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