Tinta fresca sobre a parede

A grafitagem, expressão artística democrática, de ocupação dos espaços urbanos, ganha fôlego, hoje, com uma maior aceitação de setores tradicionais da arte

iG Minas Gerais | FELIPE BUENO |

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O grafite, todo mundo sabe, é uma inscrição feita em muros, paredes, produzidas por sprays de tinta. A técnica foi por muito tempo considerada uma expressão marginal. Hoje, ganhou status de arte urbana e, até mesmo, de arte contemporânea. Um exemplo típico da valorização do grafite, um movimento que passa do espaço urbano para o local tradicional da arte, vem do artista de rua britânico Banksy, que teve suas obras expostas em galerias e viraram catálogos, livros.

Banksy, pseudônimo de Robert Banks, ganhou notoriedade por sua arte política e, por vezes, subversiva. Temas como amor, guerra, homossexualidade, meio ambiente e capitalismo permeiam a sua obra. O que mais ele se propõe a questionar é o autoritarismo, o poder político arbitrário e a repressão policial. De uma maneira bem humorada, o artista gosta de inverter a ordem vigente, criar uma nova realidade, a partir de mudança de papéis, quebra dos velhos paradigmas.

Pelo cunho social e críticas que sua arte carrega, o trabalho de Banksy ganhou projeção mundial, e, hoje, pessoas de todo o mundo conhecem as imagens estampadas em muros de diversos países. A galeria Lazarides, dedicada a abrir espaço para uma indústria de arte que foge do convencional e que trabalhe a intervenção urbana, é responsável por comercializar algumas obras do grafiteiro.

Tanto em Londres, cidade em que a obra de Banksy se popularizou, quanto em outras metrópoles do mundo, e mesmo nas grandes cidades brasileiras, o tom político e crítico começou a se inserir na arte de rua. Na capital mineira é muito comum andar pela cidade e se deparar com obras questionadoras, de cunho social. O grafite, por si só, como representante de um estilo artístico, propõe uma reflexão ao se apropriar de um lugar que não é tradicionalmente dedicado à arte, a rua.

O centro de Belo Horizonte, mais precisamente na região do viaduto Santa Tereza, possui uma grande concentração e diversidade de traçados, de desenhos, em muros e paredes. O artista de rua Sabre, que dispensa qualquer outra apresentação formal, tal qual o documento de identidade, começou a pintar há cinco anos nos espaços públicos da cidade. Segundo ele, seu estilo é mais tradicional, tem um aspecto inacabado, e passa pelo estêncil, grapixo, throw up e graffiti bomb.

Sobre a cena atual, ele dispara: “grafiteiro premiado é só aquele que faz desenho realista. Qualquer outra forma de expressão é rejeitada pelas pessoas. Pensam que você não é artista, e te olham com desconfiança. O grafite tem que evoluir, o pensamento tem que deixar de ser separatista ou, senão, vai deixar de ser arte de rua e virar de galeria”.

Uma experiência diferente, para reforçar que na arte não existem barreiras, é a junção de grafite com animação. A artista plural Adriane Puresa, que tem formação em design e trabalha com cinema, promove na mostra Mostra Udigrudi Mundial de Animação (Mumia) uma oficina de grafite para ganhar, depois, movimento através da técnica de stop motion.

A inspiração para o curso veio do filme Muto, do italiano Blu, após um convite do curador do festival de cinema de animação. “Eu já tinha visto o filme Blu e conhecia a técnica de stop motion, que pode ser feita tanto com a manipulação de bonecos como com desenhos feitos sobre um plano. Pensei que poderíamos usar o grafite nessa oficina. Primeiro fizemos os desenhos no papel mesmo, e vimos que o material ia se dissolvendo, pode ser feito, também, num painel de madeira, mas o ideal é uma parede. Você faz um desenho sobre o plano, depois apaga, e desenha outro movimento. São muitos desenhos para resultar em poucos segundos de animação”, explica Puresa.

Mas a paixão da designer por grafite é antiga. Ao andar por Belo Horizonte, ela começou a perceber o quão rica a cidade é em diversidade de grafites. Na beleza de cada desenho, ela passou a se interessar mais pelo assunto, e, a partir daí, passou a fotografar. No início, guardava para si o material, até quando teve a ideia de criar um blog, o “Grafites BH”, para divulgar as imagens. Em conversa com um amigo, descobriu que ele também tinha imagens que acrescentariam ao projeto. O próximo passo, segundo ela, é tornar o canal um local comercial, com contato dos artistas.

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