Em busca de representação

iG Minas Gerais |

O segundo turno das eleições para presidente, disputado de forma acirrada entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PT), trouxe para o centro do debate um eleitor não representado pelos programas dos dois partidos. O eleitor do tal voto crítico, não satisfeito com a forma de governar muito parecida das duas principais siglas do Brasil. A três dias da eleição, mais e mais pessoas, anônimos e famosos, manifestam o apoio em um dos candidatos, não antes de fazer uma série de ressalvas aos descaminhos tomados pelas siglas e seus representantes. E esse voto crítico – pelo menos tenho percebido isso na minha rede de relações pessoais, profissionais e familiares – tende a migrar para a candidata do PT e, em menor escala, para os brancos e nulos. E isso pode ser decisivo para uma eventual vitória de Dilma em uma eleição na qual o quadro ainda é de empate técnico. A explicação para esse movimento seria o vácuo deixado pelo Partido dos Trabalhadores ao caminhar para a direita ao longo dos últimos 12 anos. Ao se aproximar do modo de governar e de fazer política de outros partidos, o PT empurrou antigos eleitores para siglas ditas de esquerda como PSOL, PSTU ou para movimentos e grupos políticos ainda sem representação na política institucional. O partido, ao abraçar alianças espúrias e abrir mão de bandeiras históricas, causou desilusão e até mesmo mágoa e rancor em antigos militantes. Alguns, em casos extremos, foram direto para as siglas mais conservadoras. Mas, então, por que o voto crítico ainda teria maior aderência ao PT, e não ao PSDB? A resposta seria: porque, apesar de serem praticamente iguais programaticamente, as duas candidaturas ainda representam de forma simbólica ou ideológica pautas e segmentos sociais distintos. Em um vocabulário mais romântico, eleitores de Dilma e de Aécio têm visões de mundo diferentes. E, em um segundo turno tão disputado, mesmo sem concordar com as práticas do PT, parece urgente para um grupo de eleitores votar em candidaturas mais alinhadas com questões como direitos humanos, igualdade, justiça e inclusão social. E, caso Dilma vença, o PT e a presidente deveriam não só agradecer a esses eleitores, mas rever a própria trajetória trilhada pelo partido na última década. Apesar de ser uma minoria, há um número significativo de brasileiros preocupados com a afirmação de um grande partido no campo da esquerda brasileira. Ou, pelo menos, um partido com uma pauta similar a uma social-democracia, algo até então inexistente no país. Apesar dos delírios de um golpe comunista ou algo similar, a polarização raivosa da eleição de 2014 pode ser revertida como um legado, pois o Brasil forçosamente discutiu a desigualdade abissal da habitação, saúde, educação e distribuição de renda do país.

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