Pessoas mais velhas também sofrem com o abuso de álcool

Recuperada, idosa agora ajuda outras pessoas em clínica de reabilitação

iG Minas Gerais | Abby Ellin |

Família. Há relatos de idosos que escondem da família a dependência e também aqueles que são proibidos de ver os próprios netos
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Família. Há relatos de idosos que escondem da família a dependência e também aqueles que são proibidos de ver os próprios netos

Nova York, EUA. Antes de começar a perder o controle, Sylvia Dobrow “bebia como uma dama”, como dizia, combinando o vinho com os sanduíches: “Atum e chardonnay, rosbife e rosé”, mas logo se viu “bebendo ininterruptamente”, misturando vodca com leite desnatado. “Você faz o que pode para tentar esconder sua bebida de seus netos”, disse a senhora de 81 anos, mãe, avó e bisavó que vive em Stockton, na Califórnia, nos EUA.

Ex-educadora hospitalar, ela disse que o consumo de álcool se tornou incontrolável depois que perdeu o emprego e, consequentemente, “sua identidade”.

Em uma noite no início de 2007, após uma quantidade particularmente excessiva de álcool, Sylvia caiu da cama e ficou com um olho roxo. Foi quando suas duas filhas, uma das quais enfermeira, a levaram para Hemet Valley, clínica de recuperação que atende pessoas com mais de 55 anos. Na época com 73, ela ficou lá por 30 dias, a um custo de aproximadamente US$ 20 mil (R$ 48,9 mil), dos quais US$ 13 mil (R$ 31,8 mil) foram cobertos pelo seguro. Quando voltou para casa, continuou com os Doze Passos dos Alcoólicos Anônimos. Está sóbria desde então.

Cerca de 2,8 milhões de idosos nos EUA apresentam indícios de abuso de álcool, e esse número deve atingir 5,7 milhões até 2020, de acordo com um estudo publicado na revista “Addiction”. Em 2008, 231.200 pessoas com mais de 50 anos procuraram tratamento para o abuso de álcool; em 1992 foram apenas 102.700.

Organismo. “Quando ficamos mais velhos, leva mais tempo para o corpo metabolizar o álcool e as drogas. Muitos dizem: ‘Antes, eu podia beber dois ou três copos de vinho e ficava bem, mas agora que tenho quase 70 anos e já não é mais a mesma coisa’. Isso acontece porque o corpo não consegue lidar com a bebida”, disse John Dyben, diretor de serviços de tratamento de idosos no Hanley Center em West Palm Beach, na Flórida.

Certamente não são todos, mas muitos desses indivíduos com problemas com o álcool estão aposentados.

Durante dez anos, Peter A. Bamberger e Samuel B. Bacharach, autores de “Aposentadoria e a Epidemia Oculta”, conduziram um estudo sobre o abuso de substância entre adultos mais velhos. “Descobrimos que o impacto da aposentadoria sobre o abuso de álcool não era muito claro, mas que as condições que levam à aposentadoria, além de sua natureza econômica e social, têm um impacto muito maior no uso de substâncias que a aposentadoria em si”, disse Bamberger.

Mas as situações que surgem mais tarde na vida muitas vezes exigem uma capacidade de enfrentamento que os mais velhos nem sempre possuem. Alguns aposentados, solitários e deprimidos, recorrem ao álcool ou às drogas para reprimir suas ansiedades; outros podem beber para lidar com a perda do cônjuge, dos amigos, da carreira e de objetivos.

“Na aposentadoria pode haver depressão, divórcio, morte de um cônjuge, mudança de uma grande residência para uma menor. Para os viciados, o tédio é a causa número um”, disse Steven Wollman, conselheiro de abuso de substâncias em Nova York.

Superação. Agora Sylvia está tão engajada em sua recuperação que, em 2010, voltou para a escola para obter uma credencial de conselheira de abuso de substâncias. Ela trabalha meio período aconselhando pessoas mais velhas no Hemet Valley.

“Perder o propósito na vida é uma coisa que machuca as pessoas. Investimos todo nosso ego em nossa carreira, mas estes últimos sete anos e meio da minha vida foram os mais gratificantes, porque pude ajudar as pessoas. Lembra aquelas placas que as pessoas usavam no corpo para fazer propaganda? Na minha estaria escrito ‘Esperança’ na frente e nas costas”.

Seriedade

Ajuda. Pamela Noffze tinha 58 anos quando chegou a um centro para tratamento. Ela bebia uma caixa de cerveja light por dia, mas não achava que fosse sério até que a filha ameaçou proibi-la de ver os netos.

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