Problema antigo não motiva nova solução para o trânsito

Capital ainda investe pouco em alternativas para melhorar tráfego e agilizar reação a crises

iG Minas Gerais | Luciene Câmara |

Transtorno. No último dia 8, caminhão demorou mais de seis horas para ser retirado do Anel Rodoviário após acidente
AJL
Transtorno. No último dia 8, caminhão demorou mais de seis horas para ser retirado do Anel Rodoviário após acidente

Embora a praça Sete, no centro de Belo Horizonte, seja um reduto de manifestações, um protesto no local, pré-agendado ou não, é suficiente para quase triplicar o índice de congestionamento na região – da média de 30 km em dias úteis para 80 km. No Anel Rodoviário, a situação se repete. Os acidentes são diários, mas basta uma batida de média ou grande proporção para paralisar os principais corredores da metrópole por horas. Mesmo com tantos problemas previsíveis, o trânsito na capital é totalmente suscetível a qualquer acontecimento. Em parte, a situação é fruto de um sistema viário cada vez mais saturado pelo aumento de veículos, onde o transporte individual corresponde a 63% dos deslocamentos diários. Por outro lado, o caos que se forma também é consequência de um “poder de reação” ainda tímido e ineficiente dos órgãos que fazem a gestão do tráfego.

Engenheiros acreditam que o Plano de Operações Especiais de Belo Horizonte – ou plano de contingência –, usado em momentos como acidentes e enchentes, ainda é falho e não leva em conta uma série de estratégias de engenharia já disponíveis. Uma delas é a faixa reversível, adotada há mais de uma década em São Paulo e no Rio de Janeiro, e ainda desprezada na capital mineira.

A medida consiste na inversão do sentido de circulação de faixas para atender o lado que apresenta um fluxo maior de veículos. É uma forma de aproveitar pistas que ficam subutilizadas em determinados horários, enquanto o sentido oposto da mesma avenida está congestionado. Em São Paulo, a faixa reversível é montada e desmontada diariamente em ao menos 13 avenidas.

Na prática. Para o engenheiro de transportes e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Dimas Gazolla, essa alternativa se aplicaria à rotina das avenidas Amazonas, Teresa Cristina, Contorno e Raja Gabáglia. “Em acidentes, quando um dos sentidos é interditado, também é possível usar a medida no lado contrário”, diz.

Na capital, a alternativa é adotada na avenida Nossa Senhora do Carmo, na região Centro-Sul, apenas em algumas vésperas de feriados. A diretora de Ação Regional e Operação da Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans), Deusuíte Matos, disse que não pretende expandir a solução porque a considera pouco segura. “Não temos esse plano por causa do nosso sistema viário, que é diferente do Rio e de São Paulo, e da cultura da cidade. A nossa preocupação maior é com o pedestre, que não está acostumado”, argumentou.

Dimas Gazolla acredita que falta vontade política na implantação das soluções. “É fácil resolver, há tecnologias seguras disponíveis, mas precisa haver interesse”.

O coordenador regional da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), Ricardo Mendanha, que é ex-presidente da BHTrans, também acha que as soluções de engenharia ainda são pouco utilizadas. “É necessário estudar e ter esquemas prontos sobre como agir em cada ponto da cidade. Isso é feito em alguns eventos, mas não para todas as situações”, afirma.

A diretora de Ação Regional da BHTrans garante que a autarquia tem um plano de contingência que orienta a atuação diante de qualquer impacto nas microrregiões da cidade. No entanto, ela disse que não há como eliminar totalmente as retenções.

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