“Estou só, mas muito melhor”

Ex-vocalista do Yes faz show acústico no Sesc Palladium, volta a criticar a antiga banda e se diz em uma renovação musical

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Show. Além de cantar repertório do Yes e da carreira solo, Jon Anderson promete contar histórias da vida musical durante a apresentação
CarolaMurceba
Show. Além de cantar repertório do Yes e da carreira solo, Jon Anderson promete contar histórias da vida musical durante a apresentação

Jon Anderson tem duas regras diárias para se conservar: chá de limão com um pouco de mel e nada de cigarros. “Nunca fui de fumar assim, mas um só trago poderia me comprometer hoje, segundo meu médico”, diz o ex-vocalista da banda Yes. O tom de voz cristalino e elétrico não denunciam seus 70 anos de idade – ao contrário, parece se assemelhar ao de um adolescente às vésperas de estrear no palco.

É essa a sensação que Jon Anderson descreve e sente desde 2008, quando passou por seis cirurgias na garganta, quase perdeu a voz, e deu a volta por cima depois de ser expulso sem dó de uma das maiores bandas de rock progressivo da história, a qual ajudou a fundar e se dedicou por 40 anos.

Em vez de um artista ressentido e estagnado, o que o público mineiro poderá ver no Sesc Palladium, hoje à noite, na sétima passagem de Jon Anderson pelo Brasil, é um músico reinventado. Além de esconder os cabelos brancos com uma tintura quase idêntica à cabeleira loira e volumosa que conservava nos anos 1970, o cantor e compositor norte-americano deixou de lado a postura agressiva de um superstar rock n' roll.

“Desde que a banda tomou a decisão de continuar a fazer shows sem sequer perguntar meu estado de saúde, decidi investir apenas em mim e pensar que o que eu mais gosto é tocar e cantar. E já que estou sozinho, vou fazer as coisas do meu jeito, com mais intimismo e calma”, dispara o cantor, deixando escapar uma espécie de ranço na voz até então absoluta e alegre.

O fato é que Jon Anderson penou. E falar da ex-banda é tocar na ferida ainda aberta. Além das cirurgias complicadas na garganta, ele também enfrentou duas operações no estômago devido a uma pancreatite, além de uma grave crise respiratória que atacou sua coluna e suas cordas vocais. Enquanto isso, os integrantes remanescentes do Yes decidiram dar sequência à turnê de 40 anos da banda, intitulada “In The Present Tour”, sem o vocalista. “Minha voz sumiu por algumas semanas. Médicos chegaram a me alertar para não cantar mais – mas nenhum dos caras (membros da banda) apareceu. Fiquei em choque na época. Eu só pensava em sobreviver, sem esperar o que eu faria depois”, diz.

Hoje, completamente recuperado, Jon Anderson reinventou sua música e a própria voz. Dono de um raro timbre agudo – “confundem minha voz com falsete, mas eu nem sei como fazer um falsete, não tem nada a ver, viu?”, adianta, em tom de brincadeira – o cantor teve que reaprender a chegar no tom de suas canções. “As notas começaram a chegar depois que me dediquei ao chá de mel com limão todo dia. Não sei se isso resolveu, mas não abandono mais a receita”, garante.

No palco, Jon Anderson agrega uma nova postura zen e intimista, que nada tem a ver com a parafernália eletrônica característica do Yes. Em seus shows, ele se mune apenas de um conjunto de 20 velas acesas servindo de decoração, enquanto se reveza entre piano, violão, ukelele, um tipo de viola chinesa e um teclado no qual o músico só usa as teclas brancas para “organizar um som menos confuso”, segundo ele mesmo.

O repertório abraça desde os maiores clássicos do Yes, como “Sweet Dreams”, e “And You and I”, até canções menos conhecidas de sua carreira solo, como as baladas do último álbum “Survival & Other Stories” (2010). Bem humorado e “falante com o público o tempo todo”, o músico também vai entoar canções de alguns ídolos, como “A Day Of Life”, dos Beatles, “One Love”, de Bob Marley, e “America”, de Paul Simon.

No formato acústico, Jon Anderson diz agregar as inúmeras influências desde que deixou o Yes em 1980 – entre inúmeras idas e vindas – para tecer parcerias na carreira solo com o grego Vangelis, o inglês Mike Oldfield e até Milton Nascimento. “Há um tempo eu fazia rock no Yes. Hoje eu faço a música do Jon Anderson, que foi influenciada por um punhado de coisas distintas, que não ficaram presas a um rótulo de rock progressivo e pronto. Estou só, mas muito melhor. Se eu viver mas 20 ou 30 anos, vou fazer coisas novas ainda, tenho absoluta certeza disso”, completa.

Agenda

O QUÊ. Show Jon Anderson

ONDE. Sesc Palladium (rua Rio de Janeiro, 1.046, centro)

QUANDO. Amanhã, ás 21h

QUANTO. Plateia 1: R$ 100 (inteira); Plateia 2: R$ 80 (inteira); Plateia 3: R$ 40 (inteira).

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