O delicado dia a dia em um centro de tratamento do ebola

A espera por resultados, o convívio direto com os doentes e o apego à fé estão presentes no local

iG Minas Gerais | Sheri Fink The New York Times |

Daniel Berehulak/The New York Times – 6.10.14
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Suakoko, Libéria. A estrada de terra serpenteia e desce, passa pelo meio de um seringal e chega até uma colina, perto do jardim de um antigo leprosário. A mais nova praga, o ebola, está sob ataque aqui em um conjunto de prédios azuis operados por uma instituição de caridade norte-americana, a International Medical Corps. No recém-inaugurado centro de tratamento, voluntários ocidentais e trabalhadores liberianos identificam quem está infectado, salvam aqueles que conseguem e tentam impedir que o vírus se espalhe.

É um lugar normal, mas também é um lugar extraordinário. Jovens correm em círculos enquanto aguardam os resultados de testes para o ebola; a fumaça ácida de um incinerador de resíduos médicos sobe em baforadas até o extenso céu tropical; os médicos ficam irreconhecíveis naquelas roupas de proteção amarelas; os pacientes que talvez não tenham a doença ouvem rádio junto com aqueles que têm o vírus, separados apenas por uma cerca e pelo ar fresco.

Eis a rotina de um único dia

7h20 - Logo após sua chegada, cerca de meia dúzia de médicos e enfermeiros se reuniu perto das pranchetas para a troca do turno. Havia 22 pacientes, e não houve mortes durante a madrugada. O centro – que inclui uma área de triagem, uma unidade restrita para pacientes com suspeita de infecção por ebola e outra para aqueles que estão controlando a doença – foi projetado para acomodar até 70 pacientes.

7h40 - A reza da manhã começou com música e palmas e demorou três vezes mais tempo. Cerca de 18 trabalhadores locais, a maioria vestindo botas de borracha e batas azuis de hospital, que foram lavadas tantas vezes que agora estão em tons rosa-pastel, dançam e, em seguida, rezam pela misericórdia divina para a unidade de tratamento e por todos aqueles que trabalham lá.

8h10h - Sean Casey, norte-americano que é o líder da equipe do centro de tratamento, reuniu seus chefes de departamento para o que se tornou uma conversa sobre o fluxo de pacientes. O chefe de equipe das ambulâncias informou que cinco pacientes possivelmente infectados por ebola estavam à espera de transporte para o centro. Mas a enfermaria com casos suspeitos estava cheia e precisava ser esvaziada primeiro, avisou Casey.

8h40 - Uma liberiana tira um mingau de inhame de dentro de um balde azul – é o café da manhã para os pacientes e também para os funcionários. A comida é preparada em outro lugar, em uma universidade, que está fechada por causa do surto e que abriga muitos dos membros da equipe. O centro tem pessoas trabalhando no serviço de limpeza, pulverizadores e removedores de resíduos, que continuamente desinfetam o local e retiram o material contaminado.

8h45 - A equipe – um médico norte-americano, enfermeiros, um assistente médico liberiano e outros trabalhadores – coloca equipamentos de proteção para entrar nas áreas de tratamento. Luvas, roupas espessas, máscaras, capas, aventais, óculos; o vestuário é verificado em um espelho para garantir que nada esteja descoberto. O processo leva cerca de 20 minutos. Fora da área dos pacientes, funcionários descartam garrafas de água e jogam sacos plásticos de lixo do vestiário sobre um portão, sem tocá-los. Os limpadores chegam antes dos médicos, pulverizam o chão com uma solução de cloro e pegam o lixo com baldes.

10h - Dois homens vestindo roupas de proteção amarelas e espessas e luvas de borracha deixam a clínica carregando uma maca com um corpo dentro de um saco. À medida que caminham pela floresta tropical, sob o canto dos pássaros, outro homem os segue, pulverizando o caminho de terra batida até que as folhas marrons brilhem com a solução de água sanitária. Eles estavam enterrando um homem de 38 anos.

10h50 - Os médicos avaliam o primeiro conjunto de resultados de um novo laboratório móvel que a Marinha dos Estados Unidos havia montado no dia anterior na universidade local. Parece um milagre: os resultados dos testes agora serão conhecidos em apenas algumas horas, em vez dos quatro ou cinco dias necessários anteriormente.

12h - O almoço chegou; os baldes azuis em que estava o mingau de inhame do café da manhã agora contêm arroz. Trabalhadores colocam a comida em pratos de isopor na sala de estar da equipe, esperando que os médicos e enfermeiros comam quando encontrarem um momento livre.

13h - Um membro da equipe volta do mercado local com sacos de roupa de segunda mão para substituir as dos pacientes, que foram descartadas porque estavam sujas ou possivelmente contaminadas. Entre as peças que ele trouxe estão 20 lappas, um batik local, que enrolado vira uma saia; 20 sutiãs; 30 pares de meias; e pilhas de casacos e calças velhas. “Esta é de décima mão”, brinca Eric Diudonne, engenheiro civil que mandou a roupa para a equipe da lavanderia.

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