Amnésio Neves se prepara para o último debate eleitoral

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Hélvio
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Na sede da Fazenda-do-Meu-Tio (aquela do aeroporto) estava reunido o estado-maior do Partido-da-Elite-Financeira-Paulistana: Menino do Rio, EfeAgáCê, Andréa das-Neves, o assessor televisivo William Boné, Antônimo Anestésico e uma tal de Letícia Borralheira, contratada ao apagar das luzes para limpar a barra e enfeitar o salão. – Podemos começar a reunião? – perguntou das-Neves. E olhou carrancuda a plateia. – Mas isto aqui tá fedendo pra cacete! Borralheira! – Sim, senhora – acudiu Letícia Borralheira, que, ajoelhada, se esforçava para lustrar o chão de tábuas corridas. Anestésico, na dele, filosofava para dentro. APRESENTAÇÃO Como a jovem Borralheira não é conhecida do leitor, sinto-me no dever de apresentá-la, já que aspira ao cargo de Primeira-Dama-do-Leblon. Letícia nasceu em Panambi (RS) e se mudou na adolescência para Florianópolis. Lá, começou a atuar como modelo, principalmente em trabalhos fotográficos (dizem), e fez parte do casting da Ford Models de Santa Catarina (dizem) até se casar com Amnésio. Ela também se formou (dizem) na Faculdade de Moda em Caxias do Sul. Depois do casamento, tal como Menino do Rio, nunca fez nada, exceto cumprir ordens da mandachuva das-Neves. Ah, e também passar diploma de austeridade ao, digamos assim, fogoso e cheiroso maridão. Seu futuro de dondoca está garantido. DE VOLTA AO FEDOR – Posso falar? – perguntou carrancuda das-Neves. – Se a gente for apresentar toda criatura que aparece aqui, não saímos do lugar. Borralheira! – Sim, senhora – acudiu Letícia, agora devidamente apresentada. – Trate de descobrir o que é que fede tanto. Desse jeito não dá pra continuar. – Desculpe, mana, mas... – tentou se intrometer Amnésio, coçando o nariz, sendo bruscamente cortado por das-Neves: – Cale a boca, Amnésio! Aqui você é só candidato e olha que tá pegando o boi. Deixa que a gente decide. Você escuta, decora e depois repete o que a gente decidir. Entendido? E então, Borralheira: descobriu a origem do fedor? NÃO ERA BEM ALI

– Sei que não é minha área, das-Neves, mas acho que sei de onde vem – disse William Boné, acostumado a pegar gato pelo rabo. – Acho que sai da proposta do Amnésio de diminuição da maioridade penal, dentre outras tolices. – Mas o que tem a proposta de errado? – intrometeu-se Efe-Agá-Cê, afagando a cabecinha do tucano de estimação. – Você acha que devia diminuir pra 14 ou 12? – A lógica é essa. Diminuindo pra 16 anos, os traficantes vão recrutar moleques de 14. E tudo continuará na mesma. Porque, se baixar depois pra 14, vão recrutar os de 12. Se baixar pra 12, vão recrutar os de 10. E assim por diante. Então é melhor zerar a maioridade penal. Nasceu, fodeu-se: pode ser condenado antes de aprender a falar. AMNÉSIO NÃO ABRE MÃO – Dessa proposta não abro mão! – vociferou Amnésio, lançando perdigotos. – Se for preciso condenar bebês, vamos condenar. Não podemos é deixar como está! Esfregando o chão, Letícia Borralheira limpou duas lágrimas, uma em cada olho, lembrando-se dos filhinhos pequetitos. E soluçava, dengosa. – Deixa de ser chorona, criatura! – berrou das-Neves. Até parece que é com você. É só com filho de pobre! Você não corre risco nenhum. Nem você nem os filhos das elites, que podem continuar deitando e cheirando... quero dizer, fungando. EFE-AGÁ-CÊ ENTRA NA RODA – Olha, gente. Tá tudo muito bem, muito certo, mas acho que também tá fedendo esse negócio do Amnésio nunca ter trabalhado. Com 17 anos, morando no Rio, era assessor da câmara em Brasília. Com 25, foi nomeado diretor da Caixa Econômica. Saiu dali, passou a secretariar o avô. Mais um pouco, vira deputado federal, imperador de Minas e senador, tudo herdado da parentela. Então, trabalhou em quê? – Peraí, Príncipe! – berrou furiosa das-Neves. – Quem tá fazendo o quê, nesta reunião? Você é contra ou a favor do Amnésio? – Calma, minha gente, calma – botou pano quente William Boné, acostumado a surfar sem onda. – Estamos todos no mesmo barco e temos de remar juntos. A elite, quero dizer, nós, escolhemos o Amnésio. Os ricos, ou seja, nós, optamos pelo Amnésio. Os especuladores financeiros, isto é, nós, apostamos no Amnésio. Na verdade, ninguém desta turma aqui gosta de trabalhar. Preferimos sugar. Daí que precisamos de calma, de muita calma, ou nosso avião (sic) não decola e seremos derrotados. – Tudo menos isso! – esbravejou Efe-Agá-Cê que, no ato, sofreu um acesso de tosse tão forte que assustou a tucanada. Anestésico, na dele, filosofava para dentro. – Depressa, Borralheira, traz um copo d’água! – gritou das-Neves. FOI APENAS SUSTO Não, o Príncipe da Sorbonne não sofreu nenhum ataque cardíaco. Era só tosse mesmo. Firmou-se na poltrona, respirou fundo e engoliu de um trago a água. Engasgou. Outro acesso de tosse. Então caiu de costas e ali ficou, arfando, suando, tremendo. Apavorados, todos se aproximaram, mas não muito, de modo a não prejudicar a respiração já difícil do Príncipe. Anestésico, na dele, filosofava para dentro. Das-Neves olhou para Amnésio que olhou para William Boné que, pensativo, olhava para Borralheira: “Será que ela ainda usa sapatinho de cristal?”. – Sabe, gente? – filosofou para fora Anestésico. – Vamos parar por aqui. O Amnésio que se vire. Já tem a mídia paulistana fazendo tudo pra melecar a eleição. E o judiciário enxergando com um olho só. Se ainda assim Amnésio não der conta do recado, é melhor desistir. E ressuscitar a múmia do Serra pra 2018.

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