Segurando o espelho da ignorância

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Subversão. Kléber Mendonça Filho tenta mostrar em seus filmes o Nordeste que foge dos clichês do sertão
Cinemascópio
Subversão. Kléber Mendonça Filho tenta mostrar em seus filmes o Nordeste que foge dos clichês do sertão

Pernambuco é o principal polo cinematográfico no Brasil hoje. Fato. E quem ainda tem dúvida pode facilmente comprovar isso nos números. Nos últimos dez anos, o Estado levou quatro vezes o prêmio de melhor filme no festival de cinema de Brasília, o mais antigo do país. No mesmo período, na Mostra de Cinema de São Paulo, as duas únicas vezes em que o melhor longa não foi do Rio de Janeiro ou da terra da garoa, ele veio de Recife. O pernambucano “O Som ao Redor”, que concorreu a uma vaga no Oscar deste ano pelo Brasil, é um dos longas mais aclamados da história do cinema brasileiro, com mais de 30 prêmios no mundo todo. E a ironia das manifestações de “povo ignorante” e de “educação precária” dirigidas ao Nordeste – que, com Pernambuco e agora também o Ceará, tornou-se o centro pensante e o reduto de vida inteligente do cinema nacional – não é perdida no diretor do filme, Kléber Mendonça Filho. “Elas me afetam como ver alguém jogando lixo no chão. Como ver uma pessoa que não teve oportunidades o bastante na vida para formular um pensamento sofisticado, então prefere baixar as calças e fazer cocô na rua”, dispara o cineasta, segurando um espelho para os próprios autores das acusações. Para o recifense, esse “torpor educacional” é o resultado de um equívoco que começou há 500 anos e vem se perpetuando desde então, e cuja principal vítima é a elite. “O Brasil é uma dessas culturas em que alguém cometeu um erro lá atrás, e ele continuou sendo repetido sem nenhum questionamento, com a concentração de renda toda no Sudeste, e as elites acabam vítimas da própria estupidez, de não serem capaz de enxergar, por exemplo, que a escravidão e o racismo persistem no país”, analisa, levantando as questões que ele mesmo trabalhou em “O Som ao Redor”. Apesar de sua teoria de que “o Brasil foi desenhado errado”, Kléber (eleitor declarado de Dilma) acredita que nos últimos 12 anos houve uma “brecada desse processo e uma revisão de como o Nordeste é visto, assistido e tratado” pelo país. Mas para o diretor, a ascensão de Pernambuco e Ceará como polos cinematográficos tem um fundo mais técnico e financeiro. Por anos, a produção no Nordeste viveu presa à distância “nefasta” do eixo Rio-SP, dos equipamentos e laboratórios. Ela não tinha como existir na era analógica porque “fazer um filme era complicado e caro”. “Hoje eu posso fazer um longa inteiro aqui em Recife, do roteiro à finalização, e ele vai ser exibido em Cannes. Não precisa mais passar por Rio e São Paulo, e isso é maravilhoso e significativo”, celebra. Quanto à qualidade e à riqueza do discurso e olhares da produção local, ele não consegue apontar de onde ela vem. Mas reconhece os problemas que homogeneízam e diluem a maior parte das “grandes produções” do país. “Tenho a sensação de que no Rio, hoje, há quase um gás paralisante criativo da Globo por cima de todos, e uma vontade enorme de agradar, que é o veneno da arte”, opina. Kléber se diz mais à vontade para falar de onde vem o seu impulso artístico: mostrar o Pernambuco e Recife, rechaçando estereótipos. “É possível ter um sabor muito forte e honesto do lugar, sem necessariamente recorrer ao bumba-meu-boi, ao artesanato, à seca e ao sertão. É uma ótica que quis fazer nos meus filmes: dizer de onde eu sou sem me vender como produto turístico”, argumenta. Para ele, é esse Nordeste diverso e múltiplo que tem aparecido nas telas, ajudando a derrubar preconceitos e, consequentemente, surpreendendo e agradando o público. E é isso de que o cinema brasileiro precisa mais, de todas as regiões. “Todos temos um pouco de Carlos Drummond de Andrade, da cachaça, do que faz a sociedade do Rio Grande do Sul e do Amazonas funcionar. É por isso que é difícil quantificar o quanto o Nordeste contribui para a cultura brasileira porque é uma coisa imensurável, misturada e essencial. Não existe Brasil sem Nordeste”, filosofa

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