Verdadeiro dono da banca

Autor conta que tem que escrever com responsabilidade, e vê com respeito posição da Globo em cortar cenas

iG Minas Gerais | geraldo bessa |

Mexida. Aguinaldo Silva adianta que vai dar uma sacudida em “Império” para mexer com a audiência da novela
Jorge Rodrigues Jorge/CZN
Mexida. Aguinaldo Silva adianta que vai dar uma sacudida em “Império” para mexer com a audiência da novela

Reinventar-se foi a maneira que Aguinaldo Silva encontrou para continuar escrevendo. Sem nunca ter experimentado criar novelas em outro horário que não seja o das nove, a modéstia, falsa ou não, passa longe do discurso do autor. “Se pegarem as novelas de maior audiência de 1985 até aqui, meu nome está nos créditos da maioria”, valoriza. No entanto, ao analisar seus 35 anos dedicados à teledramaturgia, Aguinaldo assume suas fraquezas e comemora o renascimento de sua carreira como autor com “Império”, sua 15ª novela. “Gosto do realismo que essa novela exibe. Já tive várias fases na carreira. O medo de continuar me repetindo quase fez com que eu perdesse a vontade de escrever”, conta pernambucano de 71 anos. De formação jornalística, Aguinaldo começou sua carreira na Globo em 1979, em seriados e minisséries como “Plantão de Polícia” e “Bandidos da Falange”. Pouco tempo depois, estrearia em novelas, assinando com Glória Perez a pouco lembrada “Partido Alto”, de 1984. Na mesma década, ele começaria a conhecer o gosto do sucesso ao participar da criação das clássicas “Roque Santeiro”, “Vale Tudo” e, sobretudo, “Tieta”, onde pôde desenvolver uma assinatura totalmente sua. Ao criar verdadeiras crônicas nacionais ambientadas em fictícias cidades nordestinas, Aguinaldo apresentou ao público obras como “Pedra Sobre Pedra” e “Fera Ferida”. “O Nordeste sempre fará parte das minhas histórias. Mas precisei seguir em frente e criar de forma diferente”, conta. “Império” teve boa audiência inicial, mas perdeu muitos pontos no Ibope por conta do horário político. Como você trabalha para reverter a situação? A novela já está implementada. O público conhece e gosta do que vê em cena. Mas fica difícil com a propaganda eleitoral levando a audiência a menos de 15 pontos. “Império” dá audiência e foi uma aposta segura da Globo. A direção sabia que iria precisar de um produto forte para não perder tanto público em seu horário mais nobre. A novela consegue dobrar o número de espectadores ao entrar no ar e se mantém na liderança. Agora é hora de crescer um pouco mais. Como assim? É preciso avançar sempre. Vou dar aquela boa e velha sacudida na trama. Novos casais vão se formar, novos dramas serão desenvolvidos. E a partir daí, surgem outros ganchos. Mas nada que mude substancialmente a trama. Além de ter uma resposta de público muito boa, em “Império”, acho que fiz as pazes com a crítica. Veículos que, geralmente, denigrem meus trabalhos, falam muito bem da novela e do protagonista interpretado pelo (Alexandre) Nero. De seus trabalhos recentes, “Império” surge como uma das tramas mais naturalistas e densas de sua carreira. O que o levou a desenvolver um trabalho, digamos, mais sóbrio? Meu texto continua igual e com as mesmas marcações. O que difere mesmo é o tom mais melodramático da história. Desde que comecei a falar de “Império” que utilizo a palavra “novelão”. E é exatamente isso que define a novela. Mas não é um velho “novelão”. Respeito as bases tradicionais, mas insiro muitos elementos contemporâneos. Seja por temer a classificação indicativa ou por questões institucionais, a Globo vem cortando cenas de “Império”. Como você lida com essa interferência? Vejo com respeito. Até porque a Globo é a verdadeira dona da obra, é quem a exibe e tem o direito de fazer o que quiser. Às vezes, a direção implica com coisas bobas, mas é preciso seguir a ordem. Tenho um olhar muito crítico sobre o meu trabalho. Quando me sento para escrever, penso mesmo na massa de 40 milhões de pessoas que assistem ao produto. Não quero desrespeitar o público que me prestigia. Portanto, é preciso escrever com responsabilidade.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave