Elos em universos de solidão

Dez anos após estourar em “Contra Todos”, Sílvia Lourenço estreia como roteirista e se firma como talento do cinema

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Ascensão. Depois de lançar o filme “Insubordinados” na Mostra de São Paulo, Sílvia Lourenço vai aparecer em séries 
da Globo
Arquivo pessoal
Ascensão. Depois de lançar o filme “Insubordinados” na Mostra de São Paulo, Sílvia Lourenço vai aparecer em séries da Globo

 

Há quase 20 anos, quando estudava atuação no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), Sílvia Lourenço ouviu de Antunes Filho, um dos mais respeitados professores de dramaturgia de São Paulo, que algumas atrizes eram essencialmente intérpretes. Esse não era o caso dela. Sílvia devia e precisava escrever. “Na época, eu tinha 21 anos e fiquei muito brava, porque achei que ele estava dizendo que eu era má atriz”, ela lembra.São Paulo.

Hoje, aos 38 anos, estreando “Insubordinados”, o primeiro longa que assina como roteirista, além de protagonizá-lo na Mostra de Cinema de São Paulo, Sílvia reconhece que ele tinha toda a razão. “O cara tinha um raio X de mim num momento em que eu não enxergava que tipo de artista eu seria”, avalia.

Reimaginando personagens que o diretor Edu Felistoque havia criado para a série “Bipolar”, do Warner Channel, como produtos da imaginação de Janete (Sílvia), uma jovem solitária cuidando do pai em coma no hospital, “Insubordinados” (leia mais na página 2) reafirma a capacidade da atriz de criar figuras com um exterior sóbrio, quase silencioso, e uma vida interior riquíssima.

“O Edu tinha apenas duas semanas para filmar, uma locação, quase nenhum orçamento e, entre as filmagens da série e do longa, havia uma diferença de três anos: acabei tirando partido disso tudo para construir a narrativa”, explica Sílvia que, apesar de ser formada em letras na USP, sabia que queria ser atriz desde as peças de teatro na escola.

Trajetória. Sua primeira grande chance no cinema veio em 2004, no longa “Contra Todos”, de Roberto Moreira. Como a jovem Soninha, que inicia uma relação provocadora e complexa com um amigo do pai, Sílvia mostrou personalidade e destemor em um elenco que ainda revelou Aílton Graça e Leona Cavalli. No ano seguinte, ela ganharia o prêmio da Academia Brasileira de Cinema pela performance ao mesmo tempo hilária e desoladora de uma viciada em “O Cheiro do Ralo”.

“Na época, achei que ia seguir aquele caminho tradicional. Fiz oficina na Globo, mas não me chamaram, me ignoraram totalmente”, confessa. Foi para incrementar o orçamento de atriz sem contrato fixo com uma emissora que Lourenço começou a abraçar a escrita. Antes do roteiro de “Insubordinados”, ela escreveu o argumento de “Quanto Dura o Amor?”, segundo longa de Roberto Moreira, e fez pesquisa e colaboração nos roteiros de “As Melhores Coisas do Mundo” e “Uma História de Amor e Fúria”, de Luiz Bolognesi.

“Para mim, são trabalhos complementares. Quanto mais eu escrevo, melhor atriz eu me torno. E quanto mais atuo, mais eu consigo entender a estrutura de quem engendrou aquela narrativa”, avalia. Ao mesmo tempo, a paulistana utilizou essa experiência construindo uma carreira no cinema com diretores autorais, que lhe permitiam um trabalho mais colaborativo na criação dos personagens. “O que me atrai em um projeto é a possibilidade de imaginar um universo desconhecido e distante de mim, e fazer com que ele se torne verossímil, se comunicando com o público de alguma maneira”.

Um desses projetos foi “O Homem das Multidões”, com o mineiro Cao Guimarães e o pernambucano Marcelo Gomes, em que ela viveu a solitária Margô. “Desde os ensaios, ficou muito claro que o Paulo André e eu tínhamos espaço para fazer coisas bem além do que estava no roteiro”, ela se recorda. Dos dois meses passados em Belo Horizonte para as filmagens, ela guarda a prosódia mineira que não consegue mais abandonar. “Hoje eu falo ‘Não dou conta desse calor’, e as pessoas em São Paulo me perguntam se sou de Minas”, brinca.

Com Margô, Janete e Diana, Sílvia – uma antissocial assumida – vem se especializando em personagens solitárias. “Todo ator empresta muito do inconsciente aos seus personagens. A gente coloca muito do que não sabe neles”, analisa. Mas o interesse em “universos desconhecidos” mantém a atriz aberta a longas comerciais e projetos na televisão. “Tenho muita vontade de aprender a lidar com uma linguagem que já está pronta, como enriquecer uma engrenagem sendo apenas uma peça dela”, revela Sílvia, que ainda sonha em trabalhar com Guel Arraes.

Televisão. Ironicamente, após chegar ao cinema em um longa produzido por Fernando Meirelles, a paulistana está à Rede Globo pelas mesmas mãos. No fim do ano, ela estrela a série “Os Experientes” e, em 2015, “Felizes para Sempre”, ambas dirigidas por ele. “São caminhos que estão se abrindo, e acho que bom que seja agora, com quase 40 anos, sabendo o que eu sei”, pondera.

Ao mesmo tempo, porém, ela também escreve os roteiros de uma série cômica que será dirigida por Jeferson De e Roberto Moreira, na TV Cultura. “Quero me exercitar o máximo que der”, afirma, mostrando que entendeu muito bem o que Antunes Filho lhe revelou há quase 20 anos.

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