Justiça feita à base do grito

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Robert Duvall (atrás) e Robert Downey Jr.: pai e filho
WARNER BROS./DIVULGAÇÃO
Robert Duvall (atrás) e Robert Downey Jr.: pai e filho

A expressão “americana” define uma espécie de cultura do norte-americano médio, especialmente do meio-oeste, parte mais arraigada e autocentrada dos EUA. Ela é muito explorada pelos artistas do país, mas tem uma dificuldade maior de tradução e exportação para o resto do mundo – algo como o baseball da cultura. No auge da sua fase folk, Bob Dylan foi capaz de universalizar esse universo com perfeição, em canções como “The Lonesome Death of Hattie Carroll”. Mas sem alguém com o mesmo talento, o resultado é algo como Carrie Underwood, um country que só é engolido por quem entende de futebol norte-americano e o sistema eleitoral dos EUA.

Infelizmente, “O Juiz”, que estreia nos cinemas , está mais para Carrie Underwood do que Bob Dylan. Escrito por Bill Dubuque e Nick Schenck (“Gran Torino”), o longa tenta construir um retrato realista dos valores morais desse interior dos EUA. Mas com um roteiro que amontoa clichês explorados em mil outras produções, personagens com quem o público nunca se importa muito e uma encenação e um visual sem um pingo de criatividade ou originalidade, ele nunca chega a ser mais que um passatempo inofensivo para um domingo à tarde na TV a cabo. (confira roteiro nesta página)

A história

A trama acompanha o advogado figurão e sem escrúpulos Hank Palmer (Robert Downey Jr.) que, em meio a um divórcio, tem que voltar a sua cidade-natal para o enterro da mãe. Com uma relação difícil com o pai, o juiz Joseph Palmer (Robert Duvall) do título, que não perde uma chance de desaprovar e menosprezar o filho, ele não vê a hora de ir embora. Mas quando Joseph se envolve em um acidente e é acusado de atropelar e matar um antigo réu que havia acabado de sair da prisão, Hank é obrigado a ficar ali para defender o pai – que, é claro, não deseja sua ajuda.

Além de tentar encontrar no início um equilíbrio entre comédia e drama que nunca funciona, a direção de David Dobkin (“Penetras Bons de Bico”) transforma essa relação entre pai e filho, único elemento bem desenvolvido do filme, em uma competição de quem grita mais. Confundindo cenas grandes com cenas difíceis, ele alicerça seu longa nos vários embates em que Hank e Joseph descarregam seu ressentimento mútuo em bate-bocas acalorados, que a trilha óbvia de Thomas Newman deixa ainda mais novelescos. Mas ignora que o que faz um bom drama não são esses momentos e, sim, a calmaria que vem depois, quando os personagens têm que descobrir como conviver com o que foi destruído, e se vale a pena reconstruí-lo.

Confronto

O excesso desses momentos, e a falta de criatividade na sua encenação, fica bem claro no clímax de “O Juiz”. Para representar o estado de ânimos do “grande confronto” entre os protagonistas, o roteiro o coloca no meio de um tornado, que vem do nada e vai para o lugar nenhum – um recurso que até séries como “Desperate Housewives” já usaram.

O principal resultado disso é que Hank e Joseph se tornam dois arrogantes, incapazes de reconhecer seus erros e se desculpar por eles, com quem o público não consegue se importar muito. O roteirista Nick Schenk já explorou esse tipo de personagem conservador e irredutível em “Gran Torino”, mas naquele filme a história era o confronto dessa visão de mundo com uma realidade mais ampla.

No recorte fechado de “O Juiz”, o confronto é entre o roto e o esfarrapado – deixando a fotografia banhada de luz de Janusz Kaminski (parceiro de Spielberg) retratando uma cidade do interior idealizada, recôndito de uma superioridade moral que o espectador nunca vê. Somem-se ainda os dois irmãos que desaparecem e voltam de acordo com a necessidade do roteiro, e o desperdício da ótima Vera Farmiga como um interesse romântico clichê, que só é salvo pela recusa da atriz em seguir as regras e servir apenas o arroz com feijão. Se fosse a personagem dela no lugar de Hank, “O Juiz” poderia até ser um longa interessante.  

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