A vida como ela é encenada diariamente

Vencedor de prêmios nos festivais de Buenos Aires, Las Palmas e Paulínia, “Castanha” traz ator in- terpretando a própria vida

iG Minas Gerais | daniel oliveira |

João Carlos Castanha reencena e ficcionaliza cenas da própria vida no longa
Pedro Cupertino
João Carlos Castanha reencena e ficcionaliza cenas da própria vida no longa

João Carlos Castanha é um ator de 50 anos, que vive em Porto Alegre com a mãe Celina, de 72. Ele trabalha em pequenas peças e, para pagar as contas, faz performances como travesti em bares e clubes gays da cidade. Seu cotidiano se divide entre essa oposição dia/noite e as conversas com a mãe sobre as dificuldades da vida e da família.

É exatamente essa rotina que o longa “Castanha”, exibido hoje às 19h no Humberto Mauro dentro da Mostra CineBH, retrata. Ainda assim, ele concorreu no último Paulínia Film Festival – e em várias outras mostras – como ficção. É essa provocação da vida como uma construção ficcional diária, especialmente quando protagonizada por um ator, que torna o longa de estreia do gaúcho Davi Pretto tão instigante.

“Castanha” traz momentos que parecem pura observação documental – como o protagonista fazendo testes para peças, se maquiando para performances ou conversando com a mãe sobre a família. Ao mesmo tempo, há uma trama envolvendo um sobrinho viciado (algo que Castanha realmente havia enfrentado antes) que insere sequências claramente encenadas ali.

O segredo do triunfo de Pretto não é provocar o espectador a descobrir qual momento é encenado ou não. Mas sim apresentar o filme como um todo coeso, uma narrativa que mostra como todos assumimos papéis diferentes em cada situação da vida e somos todos um pouco atores de nossa própria esquizofrenia.

Além desse mérito da encenação, o longa é uma realização técnica impressionante. A fotografia explora o alto poder de captação do digital para filmar belíssimas cenas à noite com pouca luz, que ressaltam os recônditos da intimidade realista em contraste paradoxal com as cenas iluminadas da peça de teatro durante o dia. E “Castanha” ganhou o prêmio de melhor som em Paulínia, pelos momentos em que o protagonista e sua mãe conversam enquanto a TV acompanha as manifestações de junho de 2013 ao fundo, revelando um microcosmo contemporâneo de uma transformação social maior. É íntimo, é universal e é único como a vida de Castanha.

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