Ana e sua missão

iG Minas Gerais |

Hélvio
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Às vezes penso como fui privilegiada ao fazer parte de uma família fora dos parâmetros normais. Minha casa parecia um zoológico, com animais criados em liberdade, assim como nós, sem pressões, normas rígidas ou traumas. Sapatos? Só para ir à escola. Tive e tenho tios meio malucos, inteligentíssimos e cheios de humor. Meu tio Paulo, já falecido, era daqueles que com um avião monomotor na mão fazia loucuras, inclusive voar sozinho com ele para os Estados Unidos, somente para se encontrar com o irmão Ângelo Machado na universidade em que este lecionava. Chegando, fez-se anunciar. Mister Machado! Chamou um dos funcionários. Mister “Bunda” te aguarda na recepção. Claro que mister Machado logo imaginou de quem se tratava, afinal, quem mais poderia se apresentar dessa forma numa conceituadíssima universidade americana a não ser o meu tio Paulo? Enfim, diria que tive o privilégio de nascer numa família leve, curiosa, divertida e meio fora do padrão, o que, sinceramente, acho ótimo. Meu marido sempre brinca e diz que somos assim porque temos sangue de índio nas veias, no que de certa forma tem razão, afinal, nossa história (por parte de avó materna) começou com uma indiazinha encontrada no mato, ao lado da mãe morta, e um garoto português, órfão, que veio se aventurar no Brasil. A história é linda e vale uma crônica inteira. E foi com não muita surpresa que em 2008 escutei de minha sobrinha mais querida, quase uma filha, a novidade: passara em um concorrido concurso para uma das duas únicas vagas em conceituada ONG. Tinha exatamente dez dias para se mudar para Roraima, onde daria um curso de educação para 32 índios ianomâmis, e, depois, voando uma hora e meia num aviãozinho minúsculo, sentada em cima de caixotes, seria deixada em seu local de trabalho, uma maloca na terra ianomâmi, onde moravam cerca de 150 nativos. Na época, com 23 anos, formada em pedagogia com especialização em educação indígena, falando três línguas fluentemente, Ana veio me contar sobre os requisitos para ser aceita na ONG, uma entidade financiada com recursos nacionais, noruegueses e franceses. Primeiro: disponibilidade de permanecer até três meses na floresta de forma incomunicável, já que no local não existem rádios, telefones ou outros meios de contato. Segundo: aceitar voar em monomotores do tempo “do Onça”, viajar em barcos segurança zero, fazer longas caminhadas na mata, disposição em aprender a língua ianomâmi e, claro, ter experiência em educação indígena, o que adquirira com sua permanência e trabalho com os xacriabás. Com direito a um descanso de um mês em casa, já que trabalhou três meses consecutivos, sem folga, veio me contar sua experiência. Curiosa, fiz milhões de perguntas e me encantava cada vez mais com as respostas. Suas palavras me transportavam a outro mundo, uma realidade infinitamente distante da nossa. Admirada, observava aquele rosto jovem, bonito e sorridente. Esta não nega as origens, penso – uma autêntica “Machado” para honrar a família. E mais uma vez, lembrei-me de meu tio Ângelo, cientista renomado, fundador da Biodiversitas, ecologista desde o tempo em que “ecologia” era uma palavra estranha e pouco usual. Maior colecionador de libélulas do mundo, meu tio se embrenhou na floresta amazônica atrás dos insetos de asas coloridas. Empolgado, não percebeu que foi além do que deveria. Perdeu-se na mata e só foi encontrado muitas horas depois por um seringueiro, que o levou de volta à tribo onde estava hospedado. E foi para a mesma floresta onde meu tio, há mais de 30 anos, se perdeu que minha sobrinha partiu. Contou-me da maloca, uma colossal construção circular, feita em palha, amarrada com cipós. No meio, uma clareira onde, à noite, alguns homens e o xamã costumam retratar as notícias do dia, numa espécie de “jornal nacional ianomâmi”. Não existem divisórias entre uma família e outra. Acabou sendo “adotada” por uma velha índia, uma “irmã” da sua idade e seus dois filhos: Tariana e outro, ainda sem nome. A fumaça no ambiente é constante, cada família tem sua fogueira onde é feita a comida. A panela é pendurada numa corda enfeitada por ossos de animais, descendo em direção às chamas. Segundo minha sobrinha, cozinhar é um negócio complicadíssimo, mas aos poucos foi pegando o jeito. A alimentação ianomâmi baseia-se em mandioca, banana, frutas nativas, peixes e caças. Não é incomum encontrar araras, macacos, antas e larvas entre as iguarias. Criam galinhas como animais de estimação, pois acham um absurdo cuidar de um animal, se afeiçoar a ele, para depois matá-lo. A estrutura familiar geralmente é composta por marido, esposa e três filhos. As mulheres usam uma pequena tanga, os índios mais velhos andam nus, e os mais novos, de calção. São bonitos e asseados. Tomam de dois a três banhos ao dia, no rio ou nos igarapés. Adoram pedir xampu e sabonete emprestados, o que ela oferece com prazer. Os mais velhos não sabem a idade que têm. Somente há pouco, os jovens passaram a ter registro em seus documentos de identidade, cuja data-base é 1o de janeiro, mudando somente o ano. É como se todos, de acordo com a Funasa, tivessem nascido no primeiro dia do ano. Mesmo antes de aprenderem a andar, os pequenos ianomâmis já possuem seus facões e suas flechinhas, que manuseiam com agilidade. Quando uma pessoa morre, seu nome jamais deve ser pronunciado, e seus objetos pessoais são queimados. Ana me conta um caso divertido. Morreu na aldeia um índio chamado Daniel. Na mesma época lhe perguntaram o nome do irmão dela que, coincidentemente, chama-se Daniel. Sem saber o que dizer, respondeu: “Renato”. E assim ficou sendo. As índias dão à luz sozinhas. Entram na mata e de cócoras ganham seus filhos. No mesmo dia, após lavarem a criança, retornam ao trabalho na roça, como se nada tivesse acontecido. Admirada, Ana viu com os próprios olhos a força dessas mulheres. À noite, a mata é fria, daí a necessidade de manter as fogueiras acesas. Acostumou-se a dormir em redes, dividindo o espaço com 150 indígenas falando uma língua desconhecida e de diferentes costumes. Apesar das dificuldades, a adaptação foi rápida. Os índios são gentis, organizados e bons. Sente-se protegida ao embrenhar-se com eles na floresta, os homens vão na frente, protegendo mulheres e crianças de cobras ou qualquer tipo de perigo. A aldeia mais próxima está a dez dias de viagem. Acordam com o nascer do sol e trabalham muito. A experiência é fantástica e não tem data para terminar. Empenha-se para aprender a língua – na aldeia, pouquíssimos falam o português. Pergunto-lhe qual a lógica do branco ao interferir na vida dos índios. E ela me explica, convicta: se não são eles a prepararem os indígenas para a realidade, o sofrimento com o inevitável encontro com garimpeiros e madeireiros é enorme. Desde a década de 80, o maior problema enfrentado pela comunidade ianomâmi é advindo do garimpo, quando cerca de 40 mil garimpeiros aportaram em suas terras trazendo com eles, além da destruição da floresta, bebida, violência e determinadas doenças, assim como madeireiros e fazendeiros mal-intencionados. Ana estava feliz e pretendia passar alguns anos na região. Ainda havia muito o que vivenciar entre os ianomâmis. O objetivo da ONG em que trabalha é torná-los autônomos, ensiná-los a dialogar para defender suas terras, seus costumes. Depois disso, já se passaram seis anos. Hoje, Ana é uma das grandes sumidades da língua e da cultura Ianomâmi no mundo. No momento em que escrevo, ela viaja para mais uma das inúmeras temporadas entre os índios. Na próxima semana, também eu irei à Amazônia. À noite, em meio aos rumores da floresta, pensarei nela, que passou sua juventude inteira defendendo uma causa tão nobre. Sei que sua missão é preciosa. Por isso, como diz minha mãe, Deus protege!

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