Uma obra sempre atual

“Rigoletto”, que estreia neste sábado no Grande Teatro do Palácio das Artes, tem ambiente circense como pano de fundo

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Transgressora. Cenas de sexo que questionam a conduta moral fazem parte da peça
DENILTON DIAS / O TEMPO
Transgressora. Cenas de sexo que questionam a conduta moral fazem parte da peça

 

A tragédia “Rigoletto”, uma das principais obras de Giuseppe Verdi (1813-1901), já ganhou inúmeras e distintas montagens desde sua estreia, em 1851. Algumas mexeram bastante no cenário; outras, no figurino. Mas, independentemente das mudanças, o que sempre prevalece é o conteúdo narrativo, por ser a tônica desta ópera, prestes a ganhar uma nova versão brasileira em montagem da Fundação Clóvis Salgado que estreia sábado no Grande Teatro do Palácio das Artes.

“O enredo de ‘Rigoletto’ sempre será jovem e atrativo. Há, nele, emoções que tocam sentimentos e instintos comuns a todos os seres humanos, como amor, sexo, ciúme, vingança e tragédia”, comenta o único músico estrangeiro que compõe o elenco, o barítono italiano Devid Cecconi.

O papel principal, aliás, é revezado entre Cecconi e o brasileiro Rodolfo Giugliani. Este não esconde sua relação afetiva com a peça. “Quando eu tinha 10 anos, meu avô me contou a história. Aos 13, minha mãe me levou para ver cenas da ópera. Em 2000, quando debutei nos palcos, eu já desejava ser protagonista da peça”, relata. O sonho foi realizado em 2011, quando interpretou o papel na comemoração do centenário do Theatro de São Paulo.

Inspirada em uma peça de teatro do escritor francês Victor Hugo (1802-1885), a ópera divide-se em três atos para narrar a trágica história de um bobo da corte que lhe empresta o título. A trama tem início em uma festa no salão do palácio do Duque de Mântua. Lá, damas e cavalheiros conversam, cantam e se divertem, até que um homem entra acusando o nobre de ter desonrado sua filha. Em meio às acusações, Rigoletto, que defende todas as atitudes do duque, zomba do frustrado pai que, por sua vez, amaldiçoa o criado. A partir daí, Rigoletto tem sua vida transformada e os acontecimentos posteriores realçam os sentimentos citados por Cecconi.

A versão produzida para Belo Horizonte foi concebida pelo diretor cênico André Heller-Lopes, que já trabalhou para a Fundação Clóvis Salgado (FCS) nas produções “Andrea Chénier”, em 2010, e “Nabucco”, em 2011. Sobre a nova empreitada na capital mineira, o diretor enumera dois fatores que influenciaram sua concepção. O primeiro deles é a intenção de recriar no palco o ambiente da época em que Vitor Hugo concebeu a peça. “É revisitar a Paris da década de 1830”, diz o diretor, que já conduziu a mesma ópera em Buenos Aires.

O outro fator de influência culminou no majestoso cenário criado por Renato Theobaldo que, como conta Heller-Lopes, responde a um pedido feito pela Fundação Clóvis Salgado. “Como foi um ano difícil para a cultura, em que grande parte dos investimentos do Estado foi designado para Copa do Mundo, os governantes me pediram um espetáculo grandioso como uma forma de investimento em algo marcante para o público mineiro”, afirma.

O resultado, adianta, é um cenário que remete ao ambiente circense. “Mas não à concepção de circo dos dias de hoje”, ressalta o diretor. “É aquele que faz referência ao inverno francês da época em que se passa a história escrita por Vitor Hugo”, diz Heller-Lopes, que faz questão de citar a importância da figurinista argentina Sofía Di Nunzio, com quem havia trabalhado na encenação feita no país de Julio Cortázar.

Com mais de 60 apresentações de “Rigoletto” na bagagem, Cecconi reconhece os méritos da montagem. “É importante inovar, mas ao mesmo tempo manter uma harmonia com a peça original, como aconteceu aqui”, diz.

MUSICALIDADE. Além do grupo de cantores-atores, a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, o Coral Lírico de Minas Gerais e a Cia de Dança Sesiminas também compõem a ópera. Nesse grupo, todos os instrumentistas ficaram sob a responsabilidade do maestro Marcelo Ramos. Detalhista, o diretor musical vem acompanhando os ensaios de todos os músicos de perto. “Num primeiro momento, é importante que cada corpo artístico ensaie separadamente. Caso contrário, o reflexo negativo aparece logo que se juntam”, afirma.

“Rigoletto”, em específico, tem tomado mais tempo de Ramos do que outras obras operísticas em que trabalhou. “Na primeira olhada nas partituras, você acha que é fácil. Porém, as tonalidades exigidas são extremamente complexas. Elas me deram muito mais trabalho que ‘Baile de Máscaras’, que é muito mais longa”, relata.

A complexidade não causa, porém, distanciamento do público. Elaborada na segunda fase da vasta produção de Verdi, “Rigoletto” mostra o desprendimento de seu autor a aspectos típicos de bandas, apontando a uma orquestração mais acentuada. “Acho que algumas pessoas vão reconhecer canções, pois muitas foram usadas em desenhos animados. Além disso, tem canções famosas, como ‘La Donna É Mobile’, assim como árias muito melodiosas que nãos são difíceis de escutar. Dá até para sair assoviando no fim”, brinca.

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