O eleitor ganhou

iG Minas Gerais |

As eleições nunca se repetem. Cada qual tem sua identidade, um conjunto de vetores e fatores que balizam a decisão do eleitor, características próprias e acasos. Mesmo assim, alguns traços podiam ser identificados no horizonte eleitoral, como o sentimento de mudança, que desde junho do ano passado motivou as mobilizações gerais e setoriais. Sob esse prisma, era previsível a mão estendida dos candidatos na direção de um eleitor arredio, desconfiado e até disposto a evitar o cumprimento do dever. Distingue-se, portanto, uma relação estreita entre os movimentos de rua e o recado das urnas, ao contrário da observação de que as massas teriam apagado o facho. O que se viu foi o contrário: uma multidão silenciosa, votando sob a vontade de ver aperfeiçoadas as políticas públicas. Por conseguinte, se os resultados do pleito em algumas regiões chegam a surpreender, certamente devem ser debitados ao espírito de um ano pontuado por denúncias de corrupção. De maneira geral, a disputa produziu uma modelagem formada por três tipos de votos: o do bolso, o do coração e o da cabeça. O primeiro saiu da imensa população – cerca de 60 milhões de pessoas – que recebe o adjutório do governo, por meio de programas sociais. É o que explica os cerca de 60% da votação que a presidente Dilma obteve no Nordeste. O voto do coração foi dado, sobretudo, à ex-senadora Marina Silva, sob o empuxo da onda emotiva que se formou a partir do acidente que matou Eduardo Campos. Já o terceiro tipo, o voto racional, em expansão no país, sai da cabeça dos habitantes do meio da pirâmide, eleitores de maior renda, principalmente das regiões Sul e Sudeste, onde estão os maiores colégios eleitorais do senador Aécio Neves. Há indicações de que a tal “nova política” assentará praça na próxima legislatura? Infelizmente, não. Os resultados mostram, de um lado, grande renovação de quadros (46% de novos deputados na Câmara), e de outro, uma representação que espelha a continuidade de grupos familiares, ao lado de fortes bancadas de setores conservadores. Parece um paradoxo. O clamor das ruas por mudança não furou o bloqueio de bastiões tradicionais. Auspicioso é o fato de vermos o eleitor, na reta final, dando um drible espetacular nos marcadores de seus passos, deixando-os às voltas com explicações pouco convincentes. A referência é sobre pesquisas. Em nove Estados – CE, PE, BA, MG, DF, RJ, SP, PR e RS –, elas destoaram dos resultados finais. Esfriados os ânimos, assentada a nova base política que governará a nação, a partir de 2015, esse cidadão poderá voltar às ruas erguendo as bandeiras da era que se abre. Significa dizer que o eleitor está acordado. Não é um ente passivo, amorfo. Tem um olho no Sul, outro no Norte, sem deixar de espiar nas laterais. Por isso mesmo, foi ele o maior vencedor. Será um árbitro atento no segundo tempo do jogo. E saberá identificar jogadas perigosas, não dando chance a punhaladas pelas costas. Rígido controle de qualidade deverá ser imposto pelas duas candidaturas para evitar ultrapassagem desonesta na pista.

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