As freirinhas gêmeas

iG Minas Gerais |

Certa vez, ia de Genebra para Paris de TGV, o trem de alta velocidade francês. No mesmo vagão, assentadas três fileiras adiante, e de frente para mim, estavam duas freirinhas, que me pareceram gêmeas. Já velhinhas, rezavam contritamente, ambas girando seus terços nas mãos, sem desviar o olhar de mim. Fui ficando desconfiado e desconfortável. O tempo passava, o trem cada vez mais “açoitado”, e as freirinhas me encarando, fixadas em mim. Pensava: “Será minha careca? u, quem sabe, estou com o nariz sujo?”. E elas debulhando os terços e me olhando... Fui ficando avexado e, então, procurando jeito para disfarçar, virei o corpo e o rosto para a janela. O trem deslizava velozmente no silêncio. Procurando fixar a paisagem, me confundi, tal a velocidade com que os postes e as árvores passavam, a ponto de não saber mais o que estava passando, se nós no trem ou os postes pelo trem... E, naquele transe, vazio de ideias, fiquei pensando, sem saber que pensava, nos escândalos dos governos do PT no Brasil. Distraidamente, comparava-os com aqueles postes passantes. Eram tantos que, ao mesmo tempo em que apareciam, passavam e eram esquecidos. Quantos postes passaram e ficaram para trás no anonimato definitivo? Ficarão em nossa história de forma generalizada, como escândalos do governo brasileiro no século XXI... Mas o certo é que alguns ficarão marcados de forma especial: os sete a um da Alemanha; o caso dos românticos mensaleiros, que se assemelham aos ladrões do “trem pagador inglês”, tema e motivo de tantos filmes de Hollywood; o caso Pasadena, que causou um prejuízo de quase US$ 1bilhão; os “empréstimos” sem necessidade de quitação de milhares de dólares a Cuba, Venezuela, Bolívia e vários países da África Subsaariana; o caso da refinaria de Recife; as jogadas de Rosemere, que viajou distâncias lunares com o ex-Luiz, com a simples função de abrir portas e etc. e tal... O ex-Luiz, sempre inocente, agora diz, como marido traído, que está com “o saco cheio” de tanta infâmia contra o seu PT. O ex-Luiz só parece que é bobo... Quem não aguenta mais tanta sacanagem dele e da cambada que o cerca é o povo consciente do Brasil. E, por falar em sacanagem, a dona Dilma nem se dá mais ao luxo de disfarçar o uso do avião presidencial em campanha política. Na semana passada, não sei se por descuido ou mesmo “relaxo”, descia fagueira do avião da presidência na Bahia de São Salvador, em companhia do governador Jacques Wagner, para fazer comício e, provavelmente, se encontrar com algum pai de santo em busca de ajuda, ante a derrota iminente para o jovem mineiro Aécio Neves, que eu prefiro Cunha. Nunca, na história desse país, se viu tanto ladrão em polvorosa com as delações de pessoas que “delinquiram inocentemente” e que agora, num rasgo de consciência, resolveram abrir o bico. Mas... tem alguém preso? Nada! Os escândalos passam como os postes pelo TGV e as freirinhas gêmeas, mesmo porque na vida tudo passa e nada ficará...

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