Abertura traz ficção científica de diretor mineiro

Em contraste com esse futuro artisticamente estilizado, os outros 30% da produção foram filmados no deserto do Atacama

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Universo futurista do filme foi criado por uma produtora alemã
trem chic / divulgação
Universo futurista do filme foi criado por uma produtora alemã

A abertura do 8º CineBH acontece nesta quinta às 20h, no Centro Cultural Banco do Brasil, com a estreia em Belo Horizonte de “Deserto Azul”, dirigido pelo mineiro Eder Santos. Segundo longa-metragem do consagrado videoartista, o filme é uma ficção científica sobre um futuro em que a virtualização foi levada às últimas consequências, dominando a vida e as relações, com um protagonista (Odilon Esteves) buscando “parar de pensar e transcender” por meio de algum encontro ou conexão real.

“Acho que todo mundo tem essa procura, por isso nosso personagem não tem nome, é só ‘Ele’”, reflete Santos, que vem trabalhando no projeto desde 2006, quando começou a desenvolver o roteiro com Mônica Cerqueira. O diretor somou sua longa experiência visual às fortes influências literárias de Cerqueira para construir uma “obra sobre o silêncio com fala”. O resultado é uma coleção de textos, que lembra a obra de Chris Marker na sua reflexão sobre a sociedade atual por meio de um fluxo de consciência que une Yoko Ono e Machado de Assis. “O filme é bem humorado, trata da coisa brincando um pouco”, explica o cineasta.

Mas mesmo com o grande volume de narração quase constante, o que chama realmente a atenção em “Deserto Azul” é o visual estonteante, com um design de produção que talvez seja um dos mais requintados da história do cinema brasileiro. Não por acaso, 70% do longa foi filmado em 2010, num cenário montado no CCBB de Brasília, que ficou exposto ao público com o nome de “Estúdio Aberto”.

“As pessoas visitavam de dia, e nós filmávamos à noite”, descreve Santos. A exposição faz sentido, já que praticamente todos os cenários do filme foram elaborados ou inspirados em obras de renomados artistas brasileiros, como Adriana Varejão e Ana Maria Tavares.

Em contraste com esse futuro artisticamente estilizado, os outros 30% da produção foram filmados no deserto do Atacama. A locação remete ao título, que é ao mesmo tempo uma imagem da paisagem interior do protagonista e reflete sua insistência em buscar dentro de si respostas que só encontrará do lado de fora. Ao ser pintada de azul por um personagem vivido por Chico Diaz, ela reflete o paradoxo do desafio de sentir em um mundo virtual.

As imagens em Brasília são assinadas por Pedro Farkas, mas a fotografia no Atacama, pelo alemão Stefan Ciupek, parceiro de Lars Von Trier que também trabalhou no “Praia do Futuro” de Karim Aïnouz. Foi ele que colocou Santos em contato com a produtora alemã responsável pelos efeitos especiais do longa – os quais impressionam pela qualidade e volume, em se tratando de uma produção nacional. “Íamos fazer tudo aqui, mas é muito mais caro. Com o orçamento só das imagens aqui, a gente conseguiu fazer lá com som e tudo”, explica o diretor.

O resultado dessas contribuições é o prazer sensorial causado pela plasticidade das imagens – herança da experiência de Santos na videoarte – que criam um universo que é o híbrido de um futuro de Andrei Tarkovsky com um clipe da Britney Spears. Mas o longa é bem mais que seu visual, carregado por um ótimo elenco que, além de Esteves e Diaz, inclui Ângelo Antônio e Maria Luiza Mendonça, literalmente como a Alma que Ele procura. É ela que propõe que o protagonista sinta, dando a chave para que ele descubra que só é possível transcender por meio do amor.

De elementos como a esteira, imagem da vida do protagonista como um caminho virtual levando a nada, à oposição espelho X encontro, “Deserto Azul” é um filme que convida a ser codificado mais do que meramente assistido. Ciente disso, Santos e sua equipe criaram a campanha “Não desligue o celular”, lançada no festival do Rio e repetida aqui no CineBH. “O espectador pode baixar um aplicativo que fornece informações sobre as obras e demais referências que aparecem na tela”, descreve, apontando seu cinema do futuro.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave