Diálogos entre o tempo

Mostra começa nesta quinta com um novo conceito e exibe 98 filmes até dia 23, criando pontes entre passado e presente

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Ficção científica. “Deserto Azul”, do mineiro Eder Santos, abre a mostra amanhã
universo produção / divulgação
Ficção científica. “Deserto Azul”, do mineiro Eder Santos, abre a mostra amanhã

Não é nenhuma revelação bombástica que o calendário de festivais de cinema do segundo semestre brasileiro é bastante congestionado. Quase ao mesmo tempo em que o Indie monta sua tenda em Belo Horizonte, o festival de Brasília está a pleno vapor e o do Rio está prestes a começar. Outro ótimo exemplo, o 8º CineBH invade o Cine Humberto Mauro, o Centro Cultural Banco do Brasil e o Sesc Palladium a partir desta quinta, mesmo dia em que tem início a Mostra de Cinema de São Paulo.  

O resultado disso é uma competição brutal por títulos, estreias e exclusividades. “Essa dificuldade de conseguir filmes com distribuição no Brasil, mas que já estavam comprometidos com a Mostra de SP fez com que a gente procurasse reestabelecer o conceito do CineBH”, explica Pedro Butcher que, após uma experiência dois anos atrás, foi convidado pela Universo Produção a reassumir a curadoria exatamente por essa necessidade.

O impacto dessa revisão nos 98 filmes selecionados (vindos de 20 países e 12 Estados brasileiros) foi o abandono de um certo preciosismo do conceito de “atualidade” ou “ineditismo”. No lugar dele, a mostra oferece uma abordagem que busca novos contextos para a percepção e circulação das obras, a partir de pontes que criam diálogos entre o passado e o presente na programação. “Não precisa ser uma coisa fresquinha que acabou de sair do laboratório. Mas ao mesmo tempo, a grande maioria dos filmes não passou aqui ainda”, descreve Butcher.

O curador explica como funcionarão esses diálogos com um exemplo. Segundo ele, um dos grandes destaques da programação é a master class com o crítico norte-americano Tag Gallagher, que foi convidado a escolher três obras clássicas para discutir com o público do festival. Um deles é “Sangue de Heróis”, de John Ford. “Ele dialoga com o brasileiro ‘Faroeste’, que está na contemporânea nacional, e com ‘A Última Caçada de Búfalos’, um documentário pouco conhecido sobre a mitologia do oeste norte-americano”, analisa. Butcher acredita que várias outras conexões assim poderão ser estabelecidas pelo espectador. “A ideia da programação é tentar fazer essas pontes do passado com o presente, contextualizando obras contemporâneas que dialogam com títulos e referências clássicas”, propõe.

Outro destaque da seleção, feita por Butcher em parceria com Francis Vogner dos Reis, é “A Dança da Realidade”, primeiro longa dirigido pelo chileno Alejandro Jodorowsky em mais de 20 anos. “Ele já foi exibido em alguns lugares, mas teve pouca circulação nos cinemas e mesmo nos festivais”, conta o curador.

São as questões por trás dessa circulação desigual que o CineBH quer discutir. “O fato de determinados grandes nomes circularem mais e outros menos, apesar de serem interessantes tanto em termos de linguagem quanto de estética”, propõe o curador.

Para investigar isso, Butcher e Vogner basearam a seleção em cinco “linhas de força” que ajudam a pensar o cinema contemporâneo. A primeira é “transfiguração da realidade”, com filmes que tratam e se aproximam do real, mas com uma construção muito forte na montagem e na forma como são organizados – como os documentários “National Gallery”, sobre o famoso museu londrino, e “Mercados de Futuro”, sobre o mercado imobiliário espanhol.

A segunda linha são os “filmes pessoais”, que falam do próprio diretor ou são baseados em depoimentos de pessoas, como o nacional “E Agora? Lembra-me”. A terceira é “teorias dos cineastas”, com longas sobre diretores, a exemplo de “Double Play: James Benning & Richard Linklater”, que retrata a relação dos dois cineastas. A quarta é “o olhar e a cena”, em que a dramaturgia tem uma importância maior – como o nacional “Hamlet”, de Cristiano Burlan (“Mataram meu Irmão”), e “Noites Brancas”, do francês Paul Vecchiali, um dos destaques da seleção, segundo Butcher.

A última linha é “mito, história e cinema”, autoexplicativa e que inclui títulos como “O Atirador” e “Deserto Azul”, de Eder Santos, que abre o CineBH nesta quinta às 20h no CCBB (leia mais na página 2). “Essas categorizações podem acabar virando clichês, então nós buscamos filmes em que elas potencializam, e, não, cristalizam, a visão do diretor”, define.

Além dessa renovada mostra contemporânea, a mostra traz ainda as tradicionais oficinas e as retrospectivas dos cineastas homenageados: o francês Olivier Assayas e o argentino Santiago Loza. Este último vem a Belo Horizonte, onde oferece uma master class e participa do seminário Brasil Cinemundi, que acontece paralelo ao CineBH, discutindo estratégias de coprodução. Neste ano, o colaborador do seminário, Paulo Carvalho, adianta que o Cinemundi voltará sua atenção para o documentário e estratégias de distribuição.

“Estamos trazendo representantes da Europa, Chile e Montevidéu, que vão apresentar diferentes trabalhos e formas de promoção, com ideias para que as pessoas ligadas ao documentário brasileiro se organizem e criem uma rede de contatos maior para ir a festivais e promover suas obras da melhor maneira”, resume.

Programe-se

8º CineBH Quando. desta quinta a 23/10

Onde. Cine Humberto Mauro (av. Afonso Pena, 1.537, centro);

Centro Cultural Banco do Brasil (Circuito Cultural Praça da Liberdade);

Sesc Palladium (av. Augusto de Lima, 420, centro)

Programação completa. www.cinebh.com.br

Entrada gratuita

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