“Quero tocar em locais inéditos”

Músico falou sobre sua criação em Cuba, a vontade de tocar no Norte do Brasil, e o projeto de um disco só de sambas

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Amizade. Paquito D’ Rivera é só elogios ao Trio Corrente, parceria que ele firmou há quatro anos
Jorge Rosenberg
Amizade. Paquito D’ Rivera é só elogios ao Trio Corrente, parceria que ele firmou há quatro anos

O músico Paquito D’ Rivera, 66, é dos poucos artistas cubanos a falar abertamente sobre o regime político de Cuba. Ressentido com Fidel Castro, ele diz se sentir mal por ter conhecido Tom Jobim e João Gilberto muito depois dos anos 1950 e 1960 – devido à “prisão domiciliar com qualidade de vida altíssima” em que viveu até os anos 1980, como ele mesmo rotula sua vida na Ilha caribenha. Há quatro anos ao lado do Trio Corrente e como principal nome do latin jazz no mundo, o músico conversou com o Magazine sobre preferências musicais, o cenário do jazz contemporâneo no Brasil, além de um plano meio maluco de gravar um disco de sambas – motivado por sua paixão pelo pandeiro.

Você se diz um apaixonado por música brasileira. Lembra qual foi o primeiro contato que teve com a música do Brasil? E da música contemporânea brasileira, alguma coisa te chama a atenção? Muito provavelmente o meu primeiro contato forte com música brasileira foi o Tom Jobim com a “Garota de Ipanema”. Mas não posso afirmar com certeza. Quando sai de Cuba, em 1981, havia um mundo musical sendo feito na Europa, no Brasil, no Japão, em todo lugar, e eu tive que correr atrás. Vivi anos de atraso. Depois fui saber que todo mundo falava do Tom Jobim e João Gilberto em Nova York durante os anos 1960 e 1970, e eu mal conhecia os dois. Isso me fez sentir mal, sabe? Porque eu morava num país que não me deixava conhecer o resto das culturas.

Você tem uma mágoa de Cuba por causa dessas privações?

Não é uma mágoa. Nunca mais voltei porque é impossível. Mas tenho familiares que ficaram lá, tios, sobrinhos. Eu só não concordo com o que Fidel Castro fez com aquele país. Cuba me formou musicalmente, aos 10 anos eu estava no Teatro Nacional, em Havana, dali só cresci musicalmente, fundando depois a Orquestra Cubana de Música Moderna. Mas ao lado dessas coisas sensacionais, eu não sabia o que era o significado da palavra liberdade.

E hoje você sabe o que é liberdade? Engraçada essa pergunta porque logo quando cheguei em Nova York, na metade dos anos 1980, eu achei que o capitalismo ia me engolir, as pessoas se matavam por um lugar ao sol, o que em Cuba nunca aconteceu. Mas recentemente estive em Tóquio, tocando no Blue Note, considerado o templo do jazz no Japão, e foi uma das plateias mais admiradas e empolgadas que toquei na vida. Aí você pensa: liberdade é isso. Todo mundo associa o jazz ao formato norte-americano, mas você chega no Oriente e vê centenas de japoneses cantando a música que você fez. Isso é sensacional e me dá uma noção do que é conhecer a liberdade.

Como você avalia o jazz contemporâneo hoje, principalmente depois que saiu de Cuba e teve contato com outros músicos de nacionalidades diferentes?

Mesmo com muita gente boa, NY permanece como núcleo da nata do jazz, por isso moro lá (risos). Na verdade, fora dos EUA, vejo o Brasil com esse potencial grande, em grupos como o Trio Corrente.

Você ganhou 14 Grammys na carreira. Este último, com “Song For Maura”, rendeu o segundo Grammy americano a músicos brasileiros – o primeiro e único da história foi dado a Tom Jobim, em 1966. Como você avalia a popularização do jazz? Em primeiro lugar, o jazz não é um ritmo popular para as gravadoras e nem para o mercado, apenas para o povo que vive o jazz. Esse Grammy foi muito importante, mas sabíamos que não ia ter a divulgação esperada. Ganhar um Grammy não transforma a vida de ninguém, mas te dá uma segurança do que você está fazendo, como se alguém dissesse que você está no caminho certo.

Depois de gravar 65 discos e rodar o mundo nos principais festivais de jazz, o que você pretende fazer na música ainda? Talvez gravar um disco de samba (risos). E não é brincadeira, não. Gosto muito de pandeiro, sou apaixonado por aquele barulho. Mas no momento quero me preocupar com o “Song For Maura” e depois partir para novas possibilidades. Devo voltar ao Brasil em janeiro e tenho muita vontade de tocar no Amazonas e no Pará, aquela região linda.

Saiba mais

Trio Corrente. Há seis anos em atividade, o Trio Corrente – Fabio Torres (piano), Paulo Paulelli (baixo) e Edu Ribeiro (bateria) – é considerado hoje um dos principais grupos de jazz contemporâneos da América Latina. Desde 2009, os músicos colaboraram com artistas nacionais e internacionais, como Joyce Moreno, Hamilton de Holanda, Leila Pinheiro, Mônica Salmaso e o guitarrista norte-americano Mike Stern, que se apresentou com Miles Daves. Com dois CD’s no currículo, o trio se prepara para gravar o terceiro disco a partir de janeiro do ano que vem.

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