Um cubano bem brasileiro

Músico apresenta disco “Song For Maura”, vencedor do Grammy 2014 e fruto da parceria com os paulistanos do Trio Corrente

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Encontro. Paulo Paulelli, Paquito D’ Rivera, Fábio Torres e Edu Ribeiro formam uma parceria talentosa
Jorge Rosenberg
Encontro. Paulo Paulelli, Paquito D’ Rivera, Fábio Torres e Edu Ribeiro formam uma parceria talentosa

 

Não é de hoje que Paquito D’ Rivera encontra na música brasileira afinidades cada vez maiores com seu saxofone e clarinete. Depois de abandonar Cuba definitivamente há mais de 30 anos e se estabelecer em Nova York, dizendo que “abriu a cabeça para o mundo, inclusive o Brasil”, a maior autoridade do latin jazz está de volta às terras tupiniquins para apresentar, ao lado dos paulistanos do Trio Corrente, o disco “Song For Maura”, vencedor do Grammy norte-americano 2014 como melhor álbum de jazz latino. “Uma pérola na minha carreira. De todos os meus 65 discos, este está na lista dos dez melhores, e com músicos de primeira que só podiam ter saído do Brasil, que me acolheu”, crava Paquito, em entrevista por telefone ao Magazine, no auge dos seus “66 anos muito lúcidos”, como ele mesmo faz questão de ressaltar aos risos.

Após apresentações empolgadas em Paraty (RJ) pelo festival MIMO, e em São Paulo, a capital mineira recebe o show no Cine Theatro Brasil, às 21h de hoje. Com 14 Grammys no currículo, shows ao lado das Filarmônicas de Londres e Varsóvia, Paquito D’ Rivera diz estar vivendo o melhor momento da carreira. Isso porque, desde o primeiro encontro com Paulo Paulelli (baixo), Fábio Torres (piano) e Edu Ribeiro (bateria), no Festival Jazz e Blues de Guaramiranga, no Ceará, em 2010, ele passou a renovar seu som com o Trio Corrente. “Consegui três rapazes explosivos. O Edu é sutil, como pouquíssimos bateristas, o Fábio é um gênio que arranjou 11 das 12 músicas, e o Paulo compõe, toca, dá pitaco em qualquer estilo musical. Além disso, eles me mostram muita música brasileira. Conheço de Martinho da Vila a Hermeto Pascoal, e me encanto toda hora, com coisas que modificam meu jeito de tocar e sentir a música”, revela Paquito.

Com toda essa afinidade, os shows de Paquito D’ Rivera e Trio Corrente para promover “Song For Maura” (Paquito Records/Sunnyside, 2013) passaram por Nova York, Uruguai, Europa e até Coreia do Sul e Japão, recentemente, com sucesso de público e crítica. O álbum foi gravado em apenas três dias, sendo um de ensaio e outros dois de registros. “A gente fazia dois takes de cada música e passava para a próxima. Mas não foi nada feito nas coxas, foi espontâneo, isso sim. Tanto que na gravação de ‘Song For Maura’, Paquito chegou a se emocionar no estúdio, contou a história da mãe e chorou”, justifica Edu Ribeiro.

“Metade brasileiro e metade cubano”, como ele mesmo diz, Paquito D’ Rivera dedica as 12 canções do disco a sua mãe, Maura, que tinha admiração por João Gilberto e insistia para que ele, um dia, saísse de Cuba. “Minha mãe teve a influência de fazer a gente ouvir coisas de fora quando era possível. Lembro de ouvir jazz norte-americano criança, ela dizia para eu correr atrás e conhecer outras culturas”, diz.

Para ele, “Song For Maura” é o reflexo de uma Cuba que ficou para trás em 1981, quando o músico saiu da ilha de Fidel Castro para um show na Espanha e nunca mais voltou. “Meu casamento acabou, perdi a infância e a adolescência inteira do meu filho, mas fiz o que tinha de ser feito. Podia ter continuado tocando em Cuba, mas escolhi ir ver o mundo que Fidel sempre escondeu. Se não tivesse feito isso, não tinha disco com o Trio Corrente e esse show maravilhoso”, diz.

SHOW. O resultado de toda essa certeza está em um show que abraça o samba, o choro e o jazz latino sem cair em clichês instrumentais – assim como o Trio Corrente fez nos dois álbuns da carreira, que desmontam de Gilberto Gil a Tom Jobim com muita propriedade autoral. Ao lado de canções menos conhecidas de Pixinguinha (“Um a Zero”), Severino Araújo (“Um Chorinho Por Você”) e Guinga (“Di Menor”), o show mescla canções autorais de Fabio Torres e Edu Ribeiro, além de sucessos da carreira de Paquito D’ Rivera. “O Brasil é um expoente instrumental diferente de qualquer outro país. Aqui a coisa ferve”, atesta o músico cubano.

Agenda

O QUE. Show de Paquito D’ Rivera e Trio Corrente

ONDE. Cine Theatro Brasil Vallourec (rua dos Carijós, 258, centro)

QUANDO. Hoje, às 21h

QUANTO. R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)

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