Há 40 anos, Fittipaldi conquistava o bicampeonato da F1 nos EUA

Em uma disputa acirrada com o suíço Clay Regazzoni da Ferrari, o brasileiro da McLaren se deu melhor e conquistou o seu segundo título mundial da categoria; relembre um pouco da carreira de Emmo

iG Minas Gerais | DÉBORA COSTA* |

Emerson começou nas pistas em 1959 correndo de motos aos 13 anos de idade, com uma 50cc. Quando seus pais descobriram, imediatamente acabaram com sua carreira de motociclista.
Divulgação
Emerson começou nas pistas em 1959 correndo de motos aos 13 anos de idade, com uma 50cc. Quando seus pais descobriram, imediatamente acabaram com sua carreira de motociclista.

O ano era 1974. No início de outubro, no Grande Prêmio dos Estados Unidos - última corrida da temporada - o brasileiro Emerson Fittipaldi, da McLaren, largaria em oitavo no grid. Logo atrás vinha o suíço Clay Regazzoni, da Ferrari, que tinha a mesma quantidade de pontos do brasileiro (52) e que também lutava pelo título daquele ano. Após 59 voltas, Fittipaldi ultrapassa a linha de chegada em quarto, enquanto seu oponente, Regazzoni fechou em 11º lugar . Os três pontos conquistados naquele GP foram suficientes para que o brasileiro terminasse o Mundial com 55 – três a mais que Regazzoni e levasse seu bicampeonato.

“Com essa vitória, Fittipaldi mostrou que os pilotos brasileiros tinham chance na categoria e consagrou definitivamente o nome do Brasil na Fórmula 1. Para os brasileiros isso foi algo maravilhoso e imensurável, já que trouxe uma valorização da modalidade no país que vivia apenas do futebol”, lembra o tetracampeão de Stock Car e Diretor de Marketing da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA), Paulo Gomes.

Conhecido como o “desbravador” do esporte por ser o primeiro brasileiro a correr na Fórmula 1, o título de 1974 veio apenas para confirmar o talento de Emmo – como era popularmente chamado. Já que em 1972, ele também foi campeão pela britânica Lotus, após vencer cinco das 12 corridas, subir ao pódio oito vezes e alcançar 61 pontos. Com apenas 25 anos de idade, Fittipaldi também se tornou o piloto mais jovem campeão da F1, feito que durou 33 anos, superado pelo espanhol Fernando Alonso, que conquistou o seu primeiro título aos 24 anos.

A data comemorativa marca 40 anos de um ano glorioso para Emerson Fittipaldi, mas também de mudanças. Na sua quarta temporada como piloto profissional da categoria, Fittipaldi optou por deixar a escuderia Lotus - considerada a melhor equipe da década-  pela jovem equipe inglesa McLaren. O trabalho de Alaister Caldwell, chefe da equipe e a qualidade do carro, o McLaren M23 chamaram a atenção do brasileiro. “Era um ano de afirmação para o Emerson. Ele vinha descontente na Lotus. Foi quando recebeu a proposta da MacLaren e decidiu trocar de equipe. Ele e o Alaister faziam juntos a melhor dupla do paddock. Foi o ano para lavar a alma. Emerson mostrou que podia ser o melhor e confirmou o talento que ele possuía”, recorda o correspondente da revista inglesa Autosport e comentarista de automobilismo da Sportv, Lito Cavalcanti.

Naquela temporada, Fittipaldi tinha como concorrentes grandes pilotos, que também seriam campeões mundiais, como o austríaco Niki Lauda (campeão em 1975, 1977 e 1984), o inglês James Hunt (campeão em 1976), além do sul-africano Jody Scheckter (campeão em 1979). Mesmo competindo contra fortes adversários, Emerson se consagrou bicampeão naquele ano, após três vitórias (Gps do Brasil, Bélgica e do Canadá) e sete pódios. Correr ao lado de grandes nomes do esporte não foi um problema para Fittipaldi, já que, naquele momento, ele era também um dos destaques das pistas.

“Isso deu experiência a ele, mas o Fittipaldi já era muito maduro desde a adolescência. Antes da Fórmula 1, ele competiu na Fórmula Ford e na Fórmula 3, então já tinha experiência. Por isso, quando foi pra F1 já era estabelecido, tinha talento, aplicação, determinação e uma grande qualidade que era a sociabilidade. Fittipaldi era muito diplomático, muito controlado. Ele conseguia manter a amizade e a boa relação mesmo com os adversários. Uma das artes dele era fazer amigos”, conclui o correspondente da revista inglesa Autosport, Lito Cavalcanti.

Os 40 anos do bicampeonato de Emerson Fittipaldi na Fórmula 1 são um marco da história para os brasileiros. Afinal, após a “Era Fittipaldi”, surgiram outros pilotos de destaque como Nelson Piquet (tricampeão em 1981, 1983, 1987), Ayrton Senna (tricampeão em 1988, 1990, 1991), além de Rubens Barrichelo e Felipe Massa. Quem reconhece este feito histórico é o sobrinho de Emmo, Christian Fittipaldi, que disputa a United SportsCar, maior campeonato de endurance dos Estados Unidos.

“Para o Brasil, este título é um marco muito importante. Ele foi o grande pioneiro do nosso país, deu exemplo para vários outros esportistas que acabaram tendo sucesso. Ter o sobrenome Fittipaldi era motivo para eu ser muito exigido nas pistas, mas ao mesmo tempo me abriu muitas portas no esporte”, comenta o ex-piloto da Indy e da F1.

Outro Fittipaldi que reconhece os feitos de Emerson, é o seu neto, Pietro. Recém- campeão da Fórmula Renault, o jovem piloto, de apenas 18 anos, se espelha no avô para tentar chegar a categoria mais desejada: a Fórmula 1. “ Meu avô sempre me ajuda muito, mesmo não estando presente em todas as minhas disputas, já que fica difícil pra ele vir em todas. Mas toda vez depois de um treino, ele sempre me liga pra saber como eu fui, sempre me dá dicas. Ele está sempre me ajudando. É uma honra correr e usar o nome Fittipaldi”, conclui Pietro.

Na Fórmula 1, Emerson Fittipaldi disputou 149 Grandes Prêmios, venceu 14 e conquistou seis pole positions.

Equipe Fittipaldi e Fórmula Indy

Emerson Fittipaldi também se aventurou como proprietário de equipe na Fórmula 1. Após perder o campeonato de 1975 para o austríaco Niki Lauda, ele decidiu se juntar a seu irmão Wilson na equipe Copersucar-Fittipaldi, a primeira escuderia brasileira a competir na Fórmula 1. De 1975 a 1980, Emerson guiou o carro, mas não obteve o mesmo sucesso das outras temporadas, conseguindo apenas dois pódios (segundo lugar no GP do Brasil de 1978 e terceiro colocado no GP dos EUA West de 1980). Os maus resultados e a falta de apoio no Brasil levaram aos irmãos a fechar as portas da escuderia.

“O brasileiro é imediatista em tudo e no esporte não é diferente. Os irmãos Fittipaldi não tinham o apoio do Brasil e é muito difícil uma equipe dar certo no início, sem investimento financeiro e patrocínio. E infelizmente o projeto acabou. Talvez se a equipe tivesse continuado, outros brasileiros teriam feito sucesso na Fórmula 1”, afirma Paulo Gomes.

Após encerrar a carreira na Fórmula 1, Emerson se mudou para a Fórmula Indy. E novamente Emmo foi pioneiro, ao se tornar o primeiro brasileiro campeão da categoria em 1989, após cinco vitórias, incluindo a mais tradicional prova do mundo – a 500 milhas de Indianápolis. Ao todo, foram 22 vitórias e 17 pole positions.

Fittipaldi se aposentou oficialmente das pistas em 1996, após sofrer um grave acidente na corrida de Michigan, nos Estados Unidos.

*Com supervisão de Leandro Cabido