Uma metalinguagem debochada e popular

Projeto traz “O Fraco do Sexo Forte”, longa marginal carioca dos anos 70, ao Humberto Mauro

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Popular. Deboche do conflito entre arte e entretenimento foi produzido na “Boca do Lixo carioca”
CURTA CIRCUITO
Popular. Deboche do conflito entre arte e entretenimento foi produzido na “Boca do Lixo carioca”

No início dos anos 90, quando o governo Collor desmantelou toda a estrutura que permitia a existência de um cinema brasileiro comercialmente competitivo, o pesquisador carioca Remier Lion Rocha estava fazendo o caminho inverso. “Como trabalhava desde adolescente na Cinemateca do MAM, eu tinha acesso a várias fontes primárias de pesquisa e comecei a fazer um levantamento sobre esse cinema de gênero que servia de contraponto às ‘produções oficiais’ da Embrafilme e pesquisados pela USP”, conta.

Foi essa pesquisa que o colocou em contato pela primeira vez com “O Fraco do Sexo Forte” em uma cópia bastante deteriorada na Cinemateca em 2004. Dirigida por Osiris Parcifal de Figueroa em 1973 no chamado Beco da Fome – espécie de Boca do Lixo carioca, localizado na Cinelândia –, a comédia ganhou desde então uma nova cópia, que será exibida nesta segunda, às 19h, no cine Humberto Mauro, dentro do projeto Curta Circuito.

O longa conta a história de Wilson, ex-figurante que ganha na loteria e decide se tornar produtor de cinema. Para seu primeiro roteiro, ele contrapõe o trabalho do intelectual Humberto ao populista Carlos, apologista dos temas eróticos.

A trama é, na verdade, uma desculpa para Osiris – que se tornou lendário por seu estilo sensacionalista e bem-humorado de divulgação atuando como exibidor no circuito de cinema popular do Rio – de fazer um deboche do eterno conflito entre arte e entretenimento. “Essa divisão não existe. Ela é um recurso artificial e retórico utilizado para desqualificar um determinado tipo de experiência”, argumenta Lion Rocha. Para ele, o fato de o filme ter uma produção pobre e um “acabamento tosco”, feito com pouco dinheiro, não tira nem seu valor artístico.

“A inteligência do longa está intacta, não está nada corrompida pela precariedade técnica, ou pelo fato de que ele foi feito para ganhar dinheiro. Pelo contrário, o discurso continua muito claro”, defende. Ainda assim, o pesquisador explica que o preconceito e o descaso têm feito com que filmes como “O Fraco do Sexo Forte”, que não foi restaurado, mas apenas ganhou uma cópia a partir do negativo original, desapareçam do conhecimento público.

“O desafio é vencer a burrice e o preconceito. É entender que, se não dá para preservar tudo, a seleção tem que ser representativa de todos os segmentos, se não, você está construindo uma versão menos próxima do que era aquela realidade. O cinema brasileiro não é feito só de obras-primas, mas de uma série de exercícios e experiências”, elabora.

“O Fraco do Sexo Forte”

Quando. Nesta segunda, às 19h

Onde. Cine Humberto Mauro (av. Afonso Pena, 1.537, centro)

Entrada gratuita

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