A luz em todos os sentidos

Discípula de Amílcar de Castro inaugura mostra e lança filme que explora incidência da luz sobre os espaços

iG Minas Gerais | Deborah Couto |

Ar como suporte. Cena do filme “Nhánhá”, com roteiro e direção de Niura Bellavinha, a ser exibido amanhã no Espaço Oi Futuro
niura bellavinha/divulgação
Ar como suporte. Cena do filme “Nhánhá”, com roteiro e direção de Niura Bellavinha, a ser exibido amanhã no Espaço Oi Futuro

A cor e o tempo são os principais objetos de trabalho da artista multimídia Niura Bellavinha, que inaugura a exposição “Em Torno da Luz”, nesta terça, no Espaço Oi Futuro. Pintora de formação, Niura acredita que a pintura não tem limites e diz que trabalha a cor no sentido do tempo. “Quando você observa o azul, ele demora um certo tempo para chegar em seu sensor ótico. O vermelho leva outro tanto. É esse sentido que dou às minhas cores. É físico”, explica a artista. Luz essa que denomina sua mostra, e que, segundo ela, é o princípio de tudo. “O que define a cor é sua incidência. A luz dos nossos próprios olhos origina a visão. Inclusive para quem não enxerga”, afirma, incluindo o sentido metafórico da palavra ao título da exposição. “Há a luz filosófica, interna. É isso que eu quero dar e receber. No sentido até de metalinguagem”, diz Niura. Simultaneamente à mostra será lançado o filme “Nhánhá”, um média-metragem escrito e dirigido pela artista – sua primeira experiência na área. O filme tem direção de fotografia assinada por Alexandre Baxter e design de som de O Grivo. Rodado no interior do país, o filme apresenta ao público, em uma tela de 15 metros, uma pintura em processo. “O suporte da minha pintura é a ausência de cor. Estou mostrando ali o preenchimento do efêmero da vida. Essas coisas que nos levam a uma densidade”, diz. “Assim como na fotografia e na gravura, o branco é o papel, no meu filme o suporte é o ar. A contraforma mostrada no filme tem a ver com isso”, conta Niura. A obra mostra cidades mineiras que foram desocupadas pelas ações de mineradoras, e explora situações em que o ar torna-se suporte e a poeira, pigmento. Essa arte social, segundo a artista, é coisa que ela já vinha fazendo. Em instalação de 2006 denominada “Instabile”, Niura encheu 70 colchões translúcidos com 10 mil litros de água para jogar luz à podridão da Lagoa da Pampulha. “Queria que as pessoas enxergassem a hipocrisia de se praticar esportes em torno daquela água imunda”, diz. Uma História mineira. A ousadia da artista visual não é recente. Segundo Niura, sua decisão pelo ofício veio de uma epifania. Da experiência de “uma pipa que tinge a nuvem de vermelho e retorna molhada de nuvem, no pigmento impregnando o ar, no reflexo e no espaço”. Essa experiência, relatada pela artista de seus 14 anos, foi sua “pedra de toque”. “A partir daquele dia, me tornei pintora”, afirma. Niura estudou com Amílcar de Castro, que a convidou para assistir suas aulas no curso livre na Escola Guignard, aos 18 anos. “‘Não sei pintar’, ele dizia, ‘mas tentarei te ajudar’”, conta Niura Bellavinha. Ela participou do Núcleo Avançado de Artes, convidada pelo escultor mineiro, e das Bienais de São Paulo em 1985 e 1994. “Hoje me identifico profundamente com a psicanálise. Gosto dos textos sobre transferência, das obras de Louise Bourgeois e, sobretudo, da brasileira Maria Martins. Também tenho admirado muito o trabalho de Lygia Clark. Me identifico com o fato de aquilo ter começado na pintura e evoluído para outras experiências”, afirma Niura. A mostra “Em Torno da Luz” fica em cartaz no Espaço Oi Futuro até 14 de dezembro. A entrada é franca. Agenda O que. Abertura da exposição “Em Torno da Luz” e exibição do filme “Nhánhá”, de Niura Bellavinha. Onde. Espaço Oi Futuro (Av. Afonso Pena, 4.001. Mangabeiras) Quando. Nesta terça, às 19h30 Quanto. Entrada Franca

“Nhánhá” A Obra explora situações onde o ar torna-se suporte do pigmento (poeira) enquanto pigmento seco – que junto com a luz, transforma-se em pintura efêmera, poética e trágica. Direção de fotografia: Alexandre Baxter Design de som: O Grivo Roteiro e direção: Niura Bellavinha

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