Entre o ‘sonhático’ e o pragmático

Após o primeiro turno, Marina Silva adotou o silêncio, enquanto sua coligação já se posicionou

iG Minas Gerais |

Indecisão. Marina conversou nesta semana apenas com aliados mais próximos sobre o segundo turno
Vagner Campos / MSILVA Online
Indecisão. Marina conversou nesta semana apenas com aliados mais próximos sobre o segundo turno

SÃO PAULO. Terceira colocada na disputa presidencial, Marina Silva (PSB) passou a semana em silêncio. Enquanto todos os partidos da sua coligação e a Rede Sustentabilidade, seu grupo político, já se manifestaram publicamente sobre que caminhos vão seguir neste segundo turno, Marina ora flerta com seu lado pragmático, ora com o lado “sonhático”.  

No domingo passado, assim que a derrota nas urnas foi confirmada, Marina surpreendeu seus aliados ao fazer uma clara sinalização de que apoiaria a candidatura do tucano Aécio Neves. Até então, o sentimento geral entre os marineiros era o de que ela se manteria neutra, assim como fez em 2010, quando disputou a Presidência pelo PV. O tom do pronunciamento foi oposicionista. Marina afirmou que os eleitores haviam demonstrado um sentimento de mudança, numa indicação de que não concordam mais com os rumos tomados pelo governo da presidente Dilma Rousseff (PT).

Essa foi a última manifestação pública de Marina. Desde então, ela permanece recolhida no apartamento que ocupa em São Paulo. Apesar do constante contato com aliados, pediu para eles evitarem declarações à imprensa e disse que ela própria anunciaria sua decisão quando considerasse oportuno. A discrição de Marina contrastou com o alarde feito pelo PSB. Após a Executiva da sigla optar pelo apoio a Aécio, ele foi recebido com festa.

Marina preferiu enviar um recado ao tucano. Ela estaria disposta a apoiá-lo, desde que ele se comprometa com uma série de propostas. É o que seu vocabulário sonhático chama de “acordo programático”. Marina quer que o tucano abandone a proposta de reduzir a maioridade penal e assuma compromisso com a reforma agrária e a demarcação de terras indígenas, entre outros temas. Neste sábado, Aécio criticou a política de demarcações feita durante o governo Dilma e destacou a “importância” da questão das mudanças climáticas, mas não citou a discussão sobre maioridade penal.

ANÁLISE. Para o cientista político e professor da FGV-SP Marco Antonio Teixeira, impor essas exigências foi a maneira que Marina encontrou para não ser acusada de incoerência, já que passou a campanha defendendo o que chama de “nova política”. “Não consigo pensar em nada mais sonhático do que impor uma agenda de esquerda a um candidato de direita”, brincou Teixeira.

Para o professor, ela tenta sair menos enfraquecida do processo eleitoral, após novamente ficar em terceiro lugar, ao fazer essas demandas a Aécio. Se ceder em muitos pontos, diz, Marina terá demonstrado que seu único objetivo era tirar o PT do poder, igualando-se aos demais partidos que fecharam acordos com o tucano.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave