Elas escrevem e cantam a própria poesia

Lançamentos de discos autorais de mulheres em 2014 batem recorde e abrem espaço para o fortalecimento da composição feminina

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Escolha.Filha de Itamar Assumpção, Anelis preferiu seguir caminho autoral nos dois discos da carreira
RENATO STOCKLER
Escolha.Filha de Itamar Assumpção, Anelis preferiu seguir caminho autoral nos dois discos da carreira

“Por que não canta alguma coisa do Caetano? Ou do Chico? Também podemos buscar uns caras da nova MPB que estão compondo pra caramba”. Foi mais ou menos isso que a cantora e compositora baiana Karina Buhr, 32, ouviu antes de se arriscar a gravar canções autorais em seu primeiro álbum, “Eu Menti pra Você” (Independente, 2010). “Senti que me viam como intérprete sem me conhecer ou ouvir o que eu pretendia apresentar de música autoral, mas não podiam me olhar como compositora de cara, sem um preconceito explícito”, diz.

O que pode parecer apenas mera escolha da indústria fonográfica revela um cenário de caminho árduo historicamente, mas promissor hoje em dia para as compositoras do Brasil. Ao mesmo tempo que novas cantoras surgem a todo momento, ainda que muitas delas focadas em releituras da MPB, neste ano a indústria fonográfica abrigou o lançamento de pelo menos 14 discos com canções autorais de mulheres pouco conhecidas pelo grande público – o maior número de vozes femininas cantando suas próprias canções nos últimos cinco anos, segundo a Federação Internacional da Indústria Fonográfica, ligada à Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), que representa as dez maiores gravadoras do país – incluindo EMI, Warner Records e Universal Music. A jornalista, musicista e compositora Nilcéia Baroncelli, autora do livro “Mulheres Compositoras – Elenco e Repertório” (Instituto Nacional do Livro), avalia que desde Chiquinha Gonzaga, nos anos 50, até Adriana Calcanhotto, a partir dos anos 90, passando por Dolores Duran, Marina Lima e Rita Lee, as grandes compositoras de sucesso no Brasil são pontuais em um mercado masculinizado. “Tem uma música da Isolda chamada ‘Outra Vez’ que é famosa com Roberto Carlos, mas ninguém sabe quem é a compositora, que está viva em São Paulo até hoje e liderou a lista de direitos autorais em 1977, quando a canção foi lançada. É fato que há uma história em que a mulher foi feita para interpretar e o homem para compor – e as mulheres compositoras são exceção na MPB. Mas isso tem mudado”, atesta a pesquisadora. Uma mudança que vem caminhando lentamente há pelo menos dez anos. Segundo Fernanda Paiva, gerente de apoio e patrocínios da Natura Musical, das principais empresas que se dedicam a gravar novos artistas no país hoje, existe uma evolução tendenciosa à gravação de novas cantoras autorais. Em nove anos de projeto, dos 30 lançamentos específicos de mulheres feitos pela Natura, 18 deles são de cantoras interpretando repertório próprio. “É gente como Marisa Monte, Vanessa da Mata e Roberta Sá, ao lado de novos nomes como Camila Honda e Juliana Sinimbú – recebendo a mesma divulgação e condição para fazer um excelente disco com suas próprias músicas. Existe uma cena que precisa de divulgação e está emergindo aos poucos, formando um público novo”, diz Fernanda. Lançamentos. Neste ano, a busca de espaço dessas compositoras por este público novo parece mais nítida do que nunca. Basta olhar a boa safra de discos autorais de mulheres lançados neste ano. Anelis Assumpção, 34, filha de Itamar Assumpção, assina o segundo disco da carreira, “Anelis Assumpção e os Amigos Imaginários” (Scubidu Records) com nove das 12 faixas escritas por ela. “Minha carreira sempre esteve direcionada para a veia autoral. E acho que as mulheres têm se permitido isso, criar uma identidade própria escrevendo, ter uma digital no seu trabalho”, diz. Pensando nessa unidade pessoal, a cantora baiana Marcia Castro, 35, lançou o disco “Das Coisas que Surgem” (Independente) com cinco faixas autorais, após ter dois álbuns anteriores calcados principalmente em releituras de nomes como Rita Lee, Tom Zé e Gilberto Gil. “No processo deste terceiro disco, andei procurando canções de outros compositores, mas não encontrei nada que falasse o que eu realmente queria. Então, trocando e-mails com o poeta Arruda, comecei a criar letras inspiradas nas poesias dele. Me estimulou a compor e vi nesse caminho o meu trabalho se desenhar”, avalia. Seguindo o mesmo conceito, a cantora e compositora paraense Juliana Sinimbú, 25, lançou o primeiro disco neste ano, “Una” (Natura Musical), até com participações de Otto e João Donato. Porém, ela não abriu mão de assinar seis das 11 faixas do disco – uma delas, inclusive, da também cantora da nova geração, a baiana Marcela Bellas. “Vivi uma busca do eu-lírico feminino forte neste disco. Acredito que a cantora tem que abraçar a música, e, às vezes, a gente não consegue fazer isso só pelas músicas dos outros. Mas o legal é que tem começado também um processo de as próprias cantoras que compõe se regravarem”, diz. INCENTIVO. Em Minas, a maior revelação desse processo está no projeto Elas de Minas, que reuniu dez compositoras e outras cinco intérpretes para gravar um álbum autoral só com novos talentos regionais – lançado oficialmente ontem, com show no Teatro Bradesco. Uma delas, a cantora, compositora e flautista Irene Bertachini, 27, gravou o primeiro disco, “Irene Preta, Irene Boa” (2013) com 13 faixas, sendo oito assinadas por ela. Agora, Irene prepara um segundo álbum para o ano que vem com parceiras do projeto, como Déa Trancoso e Leonora Weissmann. “Eu amadureci nesse projeto porque vi que tinha gente como eu compondo, e compondo bem. Agora ganhei confiança para criar mais”, diz Irene. A idealizadora do projeto, a produtora Lailah Gouvêa, conta que teve medo de não receber inscrições suficientes de compositoras em 2011, quando lançou o projeto, mas se surpreendeu ao ter 173 composições distintas de 73 mulheres diferentes. Agora, ela pretende fazer edições do evento em outros Estados para jogar luz em novas compositoras. “Tive medo de não encher um disco. Mas as quase 200 músicas que recebemos eram de altíssimo nível. Então, percebi que havia compositoras escondidas, que só precisam de um empurrãozinho para surgir. E isso vai acontecer cada vez mais daqui pra frente”, avalia.

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