Jornalista mineira conta como deu a volta ao mundo pegando carona

Kívia não usou somente esse meio de transporte, mas rodou 5.000 km a bordo de veículos de estranhos

iG Minas Gerais | Letícia Silva |

VOLTAO AO MUNDO DE CARONA
KIVIA COSTA / ARQUIVO PESSOAL
VOLTAO AO MUNDO DE CARONA

Para quem tem uma inquietude de colocar o pé na estrada, não há muitas coisas que tenham peso suficiente para manter um viajante na chamada “zona de conforto”. Empregos são abandonados, famílias e amigos se tornam virtuais e, mala na mão, ele parte para mais uma aventura. Foi assim que fez a jornalista Kívia Costa, 28. Nascida em Bom Despacho, no Centro-Oeste mineiro, Kivia deixou, há sete anos, o Brasil e foi morar na Alemanha, onde passou um ano. O idioma, do qual hoje ela é fluente, ainda estava engatinhando quando ela entrou no avião. “Eu me esforcei muito para aprender alemão. Chorava muito. Estudei um ano, uma vez por semana, e fui para lá sabendo muito pouco. Mas me esforcei muito e estudei bastante gramática. Todo lugar que eu via tinha post-it com palavras em alemão”, conta.

As aventuras da mineira não pararam por aí. Seis anos depois, ela largou um emprego estável e bem remunerado em um grande banco e saiu de sua cidade em busca de um objetivo: dar a volta ao mundo pedindo carona. Foram mais de 5.000 km só de carona, 13 meses e quase 40 países visitados.

“Eu estava em um momento estável e muito legal. Eu estava fazendo uma outra faculdade. Formei em jornalismo na USP em 2009 e estava estudando economia. Ia trabalhar de bicicleta, não tinha estresse... Mas eu sabia que era uma fase e fui amadurecendo a ideia da volta ao mundo”, explica.

Kívia tinha uma lista muito maior de lugares que gostaria de conhecer, mas foi adaptando as vontades à realidade vivida. “Até eu duvidava de mim mesma que eu fosse conseguir ir à Ásia”, conta, orgulhosa por ter conseguido chegar tão longe. Na mala ela tinha apenas os vistos da China e dos Estados Unidos (alguns países fornecem o visto quando você chega até lá).

A jornalista voltou para a Grécia no primeiro dia de outubro para reencontrar o namorado, que conheceu na sua passagem por lá, em abril, e estão juntos desde então. No começo do ano ela volta ao Brasil para amadurecer as várias ideias e projetos que surgiram durante a viagem.

O fator que causa mais estranhamento nas pessoas que ouvem a história de Kivia é o fato de uma mulher, bonita, geralmente sozinha, pedir carona a desconhecidos. Além de algum machismo presente na análise, muitas pessoas julgam a ideia dela pelo fator de segurança mesmo. Ela defende que os riscos são menores do que as pessoas imaginam. “Eu geralmente vou para posto de gasolina. O motivo maior de eu pegar carona e me hospedar na casa das pessoas é que eu acho esse um estilo de viagem muito enriquecedor”, defende ela, que fez a primeira parte da viagem (Bom Despacho até o Equador, passando pela Argentina), somente de carona.

O tipo de hospedagem usado em cada país dependia de fatores como: valor de hostels, se ela tinha ou não conhecidos naquele lugar que pudessem abrigá-la e, principalmente, o momento em que ela estava. “Na América Central e no Sudeste asiático eu ficava em hostel. Já no Oriente Médio e na Àfrica do Sul, eu fiquei mais na casa das pessoas. Às vezes eu pegava um quarto só para mim e pagava US$ 5 e eu queria ficar sozinha. Tinha época que eu queria conhecer as pessoas”. Outra opção de Kivia eram os lugares “públicos”. Quando a grana estava curta ou as opções eram inviáveis, ela dormia em “qualquer” lugar. “Passei noite no posto de gasolina, na mesa do Mc Donalds, teve uma vez que eu passei a noite de um trem. Um dia fui para um parque e dormi umas cinco horas. Na Austrália cheguei a dormir em gramados na praia”, conta.

Nessas situações, ela conta que nunca foi furtada, mas que durante os 13 meses ficou sem dois celulares, algum dinheiro e um cartão de crédito. “Tudo furtado sem eu ver”.

A volta foi planejada sete meses antes de Kivia embarcar para o Brasil. “Eu queria estar aqui na Copa”, conta.

Quando voltar de fato para o Brasil, a jornalista não pretende voltar ao sistema “tradicional” de trabalhar em uma empresa ou veículo de comunicação. “A minha profissão é contar historias. Eu preciso viajar. A gente caiu na rotina de redação. Eu descobri que é possível trabalhar de qualquer lugar do mundo. As pessoas olham e pensam que você está se divertindo. Eu considero isso um trabalho”, defende ela, que é fluente em alemão, inglês, espanhol, fala italiano e está estudando a língua grega (por motivos óbvios), mas quer ficar fluente em outros idiomas. “A forma mais eficiente de aprender idioma é viajando”. E parar, segundo ela, não é uma possibilidade. “Eu acho que esta foi só a primeira parte de algo que eu ainda preciso construir”.

Na bagagem, depois de três meses acumulando momentos incríveis, saudade de casa, dores nas costas por carregar mochila pesada, situações inusitadas e cansaço, ela diz que traz muito mais do que as lembranças dos lugares que passou. “Tiveram muitas coisas que eu intensifiquei. Tirei uma lição de seguir em frente sempre, não importa o que aconteça. Sempre tem momentos difíceis, os furtos ou pessoas criticando. São situações que acontecem quando você está atrás na liberdade”, conta.

A motivação para seguir em frente, segundo a jornalista, vinha de uma música que foi sua trilha sonora nos momentos difíceis. “I am looking for freedom, looking for freedom, and to find it, may take everything I have” ("Eu estou procurando a liberdade, buscando a liberdade e encontrá-la, pode tirar tudo que eu tenho", em tradução livre), diz um trecho de “Freedon”, de Anthony Hamilton, trilha sonora do longa Django Livre.

"Não importa o que aconteça, enquanto eu estiver viva, eu vou estar buscando isso[a liberdade]", finalizou a aventureira, que seguiu, horas depois da entrevista, para mais uma viagem. 

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