Projeto estabelece relação de troca com as cidades

Em 2004, quando Inácio Neves teve a ideia de montar o Cinema no Rio, que leva filmes nacionais para seis cidades mineiras e três baianas, situadas próximas ao rio São Francisco

iG Minas Gerais | vinícius lacerda enviado especial |


Dona Maria Oliveira recebe  participantes da oficina de fotografia
Andre Fossati / Divulgacao
Dona Maria Oliveira recebe participantes da oficina de fotografia

Em 2004, quando Inácio Neves teve a ideia de montar o Cinema no Rio, que leva filmes nacionais para seis cidades mineiras e três baianas, situadas próximas ao rio São Francisco, ele não sabia se conseguiria financiamento, muito menos que projeto tornaria-se um instrumento de pesquisa e preservação da memória.

“Amigos duvidavam que eu seria aprovado em lei de incentivo e conseguiria patrocínio. Mas desde criança eu frequentava o rio e achava que a ideia de descê-lo levando o cinema para cidades ribeirinhas era ótima. Por isso não desisti e acabei conseguindo os recursos. Meus amigos nem acreditaram”, relata o idealizador. À época do primeiro financiamento, de 2.400 projetos inscritos, apenas 50, entre eles o Cinema no Rio, foi aprovado.

A surpresa dos amigos, porém, é questionável. Afinal, o projeto promove a exibição de filmes em praça pública de cidades que não têm salas de cinema. Além do objetivo cultural inerente, o fato de ser itinerante ganha visibilidade aos olhos de patrocinadores. Esse atributos, no entanto, não foram suficientes para Neves, que logo entendeu a relação de troca que o projeto propiciava. “É muita ingenuidade de um produtor que faz eventos no interior achar que está apenas levando cultura. Na verdade, está indo também ao encontro dela”, conta.

Foi assim que nasceram reverberações que tornam o projeto um instrumento de investigação da realidade cultural e preservação da memória. A primeira atitude foi a produção de documentários sobre cada uma das cidades que passavam. Dessa forma, por meio de depoimentos de moradores e imagens, o projeto está mantendo vivo causos que regem a cultura popular das cidades.

Há também oficinas lúdicas de fotografia oferecidas para alunos da rede estadual e explicações sobre produção cultural. “Na escola já temos uma disciplina sobre produção de eventos, que fica muito mais completa quando profissionais da área relatam o dia a dia da profissão”, afirma o estudante do ensino médio Johnantan Nascimento, 18, que participou de um bate-papo com o produtor-executivo do Cinema do Rio, Rangel Moreira.

A aproximação entre o projeto e as cidades também acontece por meio da contratação de mão-de-obra local e pelo convite a grupos artísticos para abrir as exibições. Ambos recebem pelo serviço e, em alguns casos, têm a carreira impulsionada depois de participarem do evento.

O grupo de batuque de Mathias Cardoso, por exemplo, foi convidado por Neves para se apresentar antes de uma sessão anos atrás. Dona Agripina, a líder, recusou a oferta. “O pessoal da cidade não gosta de nossa música”, justificou. Depois de muita insistência, eles o grupo aceitou o convite e, para surpresa de todos os integrantes, todos gostaram e dançaram muito. Um ano depois o grupo viajaria para se apresentar para o então presidente Lula, em Brasília. “Exemplifica a importância de, às vezes, ter um olhar estrangeiro para validar uma manifestação e também aproximar as pessoas”, opina Neves.

Há muitas histórias como essa, que ilustram a imbricação do projeto com as manifestações da cidade, com seus moradores e, de certa forma, com sua história. Agora, Inácio pretende trabalhar no projeto O Vivido (www.ovivido.com.br), que mapeia todas as bacias hidrográficas do Brasil, e prepara-se para atingir o único local que falta para completar todo o Rio São Francisco: a represa de Sobradinho. “Está previsto para passar lá no ano que vem e fechar esse ciclo”, adianta.

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