Em defesa do Velho Chico

Nona edição do projeto Cinema no Rio São Francisco denuncia situação periclitante do rio por nove cidades ribeirinhas

iG Minas Gerais | vinícius lacerda enviado especial |

Cinema no Rio Sao Francisco
André Fossati/divulgação
Cinema no Rio Sao Francisco

Em apenas um dia de caminhada e conversa com moradores de São Francisco, município localizado na região Norte de Minas Gerais, é possível notar que a maior baixa do rio, que empresta o nome à cidade, é sentida por todos, especialmente pelos anciões. Não precisa nem fazer uma pergunta direta, basta pronunciar o nome que os olhares dos moradores rapidamente procuram o chão, como se fossem culpados de algo, como se estivessem vendo um ente querido padecer aos poucos de uma enfermidade. São Francisco, MG.

O rio passa pela pior seca dos últimos cem anos, por isso, ninguém fui o viu em tal estado. Sabiamente, um dos moradores definiu o sentimento coletivo com os dizeres: “Ele era mais vivo”. A frase está registrada no “Documentário do Rio São Francisco”, que foi produzido pela equipe do Cinema no Rio São Francisco, um projeto que há nove anos leva anualmente filmes brasileiros para praças públicas de cidade ribeirinhas.

Com o passar dos anos, o projeto desdobrou-se e foram integradas oficinas, ações de conservação de patrimônio imaterial e de integração da cultura local na programação. Neste ano, o projeto assume o papel de protetor do rio. “Em todas as edições, nós íamos de cidade em cidade pelo rio. Neste ano, quando soube que devido à seca teríamos que ir por terra, percebi que deveria fazer algo”, diz o idealizador e coordenador do Cinema no Rio, Inácio Neves.

A primeira atitude foi mudar a produção dos vídeos de registro das cidade. Usualmente, a equipe faz um documentário sobre cada cidade, com depoimentos dos moradores, que é exibido antes dos filmes da programação oficial (veja quadro ao lado). Neste ano, porém, a equipe viajou pelas nove cidades – seis mineiras e três baianas – com semanas de antecedência para fazer um único documentário que revela a percepção e consequências de pescadores, moradores e comerciantes sobre a seca no Velho Chico. “O vídeo aproxima o ribeirinho da sua realidade ao mostrar algo que ele enxerga, mas nunca vê. Assim, promove uma reflexão importante sobre a riqueza de nossa cultura”, avalia o professor local de história e ex-secretário da cultura José Adonai.

Além disso, as exibições desta edição são acompanhadas de uma exposição itinerante com imagens que mostram o rio São Francisco ainda robusto. “É uma forma de motivar a própria população a refletir sobre a situação”, diz Neves, que também espera que o projeto o qual coordena seja um meio pelo qual a situação difícil que o rio passa ganhe mais visibilidade. “A cultura flui pelo rio, assim como a religiosidade e a memória. É, além de tudo, parte destas comunidades”, afirma.

CINEMA NA PRAÇA. Durante a primeira exibição do “Documentário do Rio São Francisco”, a maioria dos olhares estava direcionada para a grande tela erguida por infláveis. Ao lado dela, dois canhões de luz davam ares de tapete vermelho para os senhores e famílias, cujos filhos mostravam-se ansiosos para assistir ao desenho que também seria exibido naquela noite. Os jovens, por sua vez, dividiam a atenção entre o filme e as conversas com amigos.

A auxiliar financeiro Rejane da Silva levou o marido e seus dois filhos, um deles com poucos meses de vida e outro com quatro anos, para o já tradicional dia de cinema na praça. Ficou lá até as 23h e, assim, conseguiu ver os curtas “O Céu no Andar de Baixo”, “Os Meninos e o Boi” e a animação “Minhocas” (primeira animação brasileira produzida integralmente no país). “Todos os anos eu compareço e acho ótimo poder ver filmes que não tenho acesso. Meus filhos também gostam muito”, contou.

Quem também viu os filmes foi a aposentada Maria Rodrigues de Oliveira, 82, que mora em uma casa no entorno da praça e todos os anos coloca sua cadeira do lado de fora para assistir aos filmes. “Acho ótimo quando a praça fica cheia assim”, diz a moradora, que passou a adolescência atravessando o rio São Francisco nadando. Sobre a atual situação, apenas diz :“Toda vez que vejo o rio, eu choro”.

Já era tarde quando o último filme exibido na noite foi “Vou Rifar Meu Coração”, por isso, o grande parte do público havia partido. Mesmo assim alguns ainda se encantavam com as histórias e com a pipoca, que é distribuída gratuitamente. Amanhã, outra cidade recebe a exibição dos filmes e junto com eles a mensagem em defesa do Velho Chico.

O repórter viajou a convite do Cinema no Rio.

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