O canto do cisne de Hoffman

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Diamond films/divulgação
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Não é por acaso que “O Homem Mais Procurado”, filme que estreia esta semana na cidade<CF51> (confira roteiro nesta página), comece com uma imagem do porto de Hamburgo, com as ondas sob a luz amarelo-amarronzada lembrando o canal de um esgoto. O filme do diretor Anton Corbijn (“Um Homem Misterioso”) acompanha personagens que habitam e transitam em um esgoto moral há tanto tempo que não sentem mais seu cheiro. Não há grandes reações emotivas, arroubos de indignação ou discursos edificantes. Eles sabem como as coisas são e apenas fazem seu trabalho. E o grande mistério dessa história de espião é identificar quem são esses operários apertando os parafusos da engrenagem e quem é realmente mau.

Adaptado do livro de John Le Carré (“O Jardineiro Fiel”), o longa se passa na cidade alemã, que muitos acreditam ter sido o QG organizador dos atentados do 11 de Setembro. Enquanto investiga a ligação de um filantropo muçulmano com o financiamento ao terrorismo, o chefe da estação de inteligência local Günther Bachmann (Philip Seymour Hoffman) se depara com a chegada à cidade de um imigrante ilegal checheno de nome islâmico, Issa Karpov (Grigoriy Dobrygin).

Sua equipe deve descobrir as motivações por trás da presença de Karpov ali, resistindo à pressão da polícia alemã, que quer prendê-lo por acusações não-comprovadas de terrorismo, e sob o olhar escrutinador da CIA, representado por Martha Sullivan (Robin Wright). Karpov, por sua vez, recorre à ajuda da advogada de direitos humanos Annabel Richter (Rachel McAdams) em busca de asilo político no país.

Não há uma trama mirabolante cheia das reviravoltas típicas do gênero. O roteiro e Corbijn estão mais interessados no modo como os personagens lidam com as implicações morais diárias de seu trabalho. Não há vida pessoal aqui, nem muita história pregressa. Esses sujeitos vivem e são definidos pelo que fazem.

Saudoso

É por isso que um grande elenco é fundamental, e ninguém deixa isso mais claro que o saudoso e excepcional Hoffman. Seu Günther é um homem de poucas palavras – e mesmo de poucas ações. Porque seu trabalho é ler: ler situações, ler pessoas, estar numa profundidade sempre 10cm abaixo do que alguém diz ou faz.

Por isso, ele é um homem extremamente frio e distante, mas o que Hoffman consegue expressar com seu corpo e sua respiração constroem um personagem tão palpável e tão completo que é dolorido pensar que nunca mais teremos a chance de ver isso de novo.

O ator personifica com sua corpulência e seu andar cansado todo o peso dos anos da instituição que ele representa e do trabalho que faz. Se Hoffman brilha, McAdams é o elo fraco do elenco. Sua Annabel faz algumas das decisões morais mais importantes do filme, e a atriz não tem a densidade dramática necessária ao tom ditado por Corbijn – Rachel Weisz ou Claire Danes seriam escolhas melhores.

Já Robin Wright faz uma variação da sua lady Macbeth em “House of Cards”. Mas o longa é Hoffman. Seja na cena em um bar quando ele finalmente reage ao fedor moral ao seu redor, ou na explosão do final, o ator mostra que seu Günther tenta parecer mau, mas na verdade, é um operário da engrenagem – sob a qual, como o último plano de Corbijn deixa claro, ele está preso, como todos os outros. 

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