'E se os pagantes exigirem bis'

Musical com trilha de Edu Lobo e Chico Buarque faz curta temporada em BH

iG Minas Gerais | Giselle Ferreira |

Fernando Eiras domina o centro do picadeiro e comanda o circo na saga pela sobrevivência em meio à guerra
Leonardo Aversa/Divulgação
Fernando Eiras domina o centro do picadeiro e comanda o circo na saga pela sobrevivência em meio à guerra

Quando Frederico visita o circo, a paixão por Beatriz lhe arrebata o peito e o médico deseja abandonar a carreira para ser palhaço. “Me leva para sempre, Beatriz. Me ensina a não andar com os pés no chão”, ele suplica à bailarina. “Diz se é perigoso a gente ser feliz”, pergunta, como que prenunciando sua convocação à guerra e os ciúmes de Charlote – com quem o aristocrata tinha um casamento arranjado.

Sucesso absoluto nos anos 1980, “O Grande Circo Místico”, balé encenado pelo Teatro Guaíra (PR) com trilha sonora de Chico Buarque e Edu Lobo, volta à cena repaginado como musical. Idealizado pela filha de Edu, Isabel Lobo, o espetáculo chega a Belo Horizonte para um final de semana (de 17 a 19 de outubro) no Cine Theatro Brasil. 

Com direção de João Fonseca, já considerado um especialista em musicais – as montagens teatro-biográficas de Tim Maia, Cazuza, Cássia Eller e outras tantas levam sua assinatura –, o novo “Grande Circo Místico” marca a comemoração dos 70 anos de seus autores. A partir do poema “A Túnica Inconsútil”, escrito pelo alagoano Jorge de Lima em 1938, Edu musicou e Chico escreveu 16 canções para o espetáculo original, do qual só essa espinha dorsal é conservada.

Velhos hinos da dupla são unidas por uma nova história na qual ganham vida personagens emblemáticas como a sensual Lily Braun e a apaixonante Beatriz (Luciana Pandolfo), que faz Frederico (Gabriel Stauffer) chorar pelos cantos. Formatado como musical, a dramaturgia ganha destaque e toda uma nova história e sentido são atribuídos ao picadeiro – com aval de seus criadores, que acompanharam, emocionados, o processo meticuloso da adaptação.

Cinco músicos e 17 atores, cantores e bailarinos ensaiavam mais de 12 horas por dia durante os três meses de preparação para que o texto de Newton Moreno (“Maria do Caritó” e “Tatuagem”) e Alessandro Toller soasse natural e vivo. “É impossível contar a mágica da transfiguração das cenas”, conta o ator Fernando Eiras (“Sessão de Terapia”, “Guerra dos Sexos” e “Páginas da Vida”), que interpreta o administrador e maestro do circo. “Para não ficar postiço, o artista em cena precisa se misturar com o que faz”, complementa, sobre a entrega do elenco durante as três horas em que conta a saga do Grande Circo Knieps para sobreviver em meio à guerra.

Saga

O novo elemento – a guerra, ausente do poema e do balé –, aliás, é o que faz o contraponto perfeito, de acordo com Eiras, para que a história se feche em torno do circo com mais coerência, para que ele seja a essência, em vez de apenas uma linguagem ou alegoria.

“Essa é uma história que fala sobre a capacidade de sonhar e o poder dos nossos sonhos. Ninguém vive se não realiza seus maiores desejos, se não se torna o que quer. É uma história sobre a vida e a arte, sobre como as duas são amigas e convivem juntas. Um jovem se apaixona pela bailarina do circo e no meio disso existe uma guerra. A simbologia da guerra que nos coloca em risco diante da vida serve também para dizer da arte. O artista vive o risco de experimentar diante do público o extraordinário. O artista é um feiticeiro. Sobretudo quando uma bomba cai dentro da lona e tira a alegria dali”, explica Eiras, sobre o momento em que o conflito atropela a arte e faz com que os artistas tenham que vagar à procura de um lugar menos hostil.

É na guerra, na busca pela sobrevivência, portanto, que as histórias vão sendo contadas e que pessoas vão se conhecendo melhor. É na guerra, também, que a arte se fortalece e prevalece – o circo vence a briga e o amor vence a dor –, apagando as cinzas dos bombardeios com poesia e fantasia.

Para dar conta da estrutura dramática, os dramaturgos e o diretor pinçaram outras três canções da parceria de Chico & Edu – “Valsa Brasileira”, “Salmo” e “Acalanto” foram incluídas no roteiro, de modo que trilha e espetáculo se encaixem tanto que Eiras nem saiba apontar um número como favorito. “Eu gosto tanto do espetáculo de tantas maneiras! É impossível ter qualquer tipo de predileção”, confessa o ator, que estará na próxima novela das seis (“Sete Vidas”), de Lícia Manzo.

No cinema

E o espetáculo original ganhará uma versão para a telona pelas mãos de Cacá Diegues. O início das gravações está planejado para o final do ano. No elenco, estarão Antônio Fagundes e Mariana Ximenes, como o casal protagonista, Vincent Cassel, Catherine Mouchet, Luiza Mariani e Jesuíta Barbosa.

O Grande Circo Místico Músicas de Edu Lobo & Chico Buarque Dir. João Fonseca. Com Luciana  Pandolfo, Gabriel Stauffer,  Fernando Eiras e Isabel Lobo. Cine Theatro Brasil Vallourec (r. Carijós, 258, centro, 2626-1231). Sexta (17), às 21h; sábado (18), às 20h; e domingo (19), às 19h. De R$ 50 a R$ 150 (inteira).

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave