Amilcar em versão monumental

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Jomar Braganca/DIVULGAÇÃO
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Concebidas para uma exposição realizada na Pinacoteca de São Paulo, em 2001, cinco das 12 pinturas da série “Bandeiras”, de Amilcar de Castro (1920-2002), podem ser vistas na mostra “Verticalidade”, em cartaz na galeria Lemos de Sá. Esta é a primeira vez que as telas de grandes dimensões (12 m x 2 m) são vistas em Belo Horizonte. No ambiente, elas estão exibidas junto com 17 esculturas feitas em aço, além de alguns desenhos do artista que serviram como estudos para ele criar as peças tridimensionais.

“Quando fui convidado para realizar essa exposição, eu imaginei que seria interessante criar um contraponto na galeria, trazendo também algo mais próximo da escala humana. Por isso selecionei esculturas, que têm em média 30 ou 40 cm de altura”, observa Rodrigo de Castro, curador da iniciativa e filho de Amilcar de Castro. De acordo com ele, as obras em destaque não haviam sido expostas aqui até o presente em razão da dificuldade de se encontrar um local com a altura adequada para recebê-las. “Elas foram produzidas a partir das medidas do vão da Pinacoteca de São Paulo e por isso tem essa dimensão. Apesar da galeria Lemos de Sá ter uma boa estrutura, elas ainda assim serão vistas dobradas”, pontua o curador.

Processo

Castro explica que, para produzir as pinturas, Amilcar trabalhou em seu ateliê, de 17m de largura, fixando o tecido no chão ou na parede. “Assim, ele pintava em pé e andava por cima do tecido. Com a tela prendida na parede, a estratégia era praticamente a mesma. Ele caminhava enquanto deslizava a tinta pela tela e concluía o trabalho”, detalha.

Nessas criações, o escultor utilizava as conhecidas “vassouras”, que eram instrumentos adaptados para receber a tinta capaz de permitir as composições. “Foi necessário criar essa ferramenta para que ele pudesse construir essas pinturas. Imagine que com um pincel a tarefa de cobrir 12 m de tecido seria muito árdua ou praticamente impossível”, observa o curador.

Apesar da diferença de proporção, ele ressalta que as “vassouras” funcionavam como as brochuras usadas pelo artista mineiro. Contudo, ao seu ver, há uma mudança na linguagem praticada por Amilcar de Castro e que é percebida no conjunto “Bandeiras”.

“Diferentemente de outras obras em que ele as executava com um movimento único, nas ‘Bandeiras’, ele não tinha como manter isso por causa do próprio tamanho do tecido. Ele teve que percorrer aquele espaço preenchendo-o com a tinta. Portanto, o modo de fazer é outro. Isso deságua num resultado também divergente”, afirma Castro.

As tonalidades, no entanto, não vão além do azul, do vermelho e do amarelo, que eram as mais empregadas pelo artista, conhecido pela maneira como enfatizava não ser pintor.

“Ele dizia que não era pintor porque, para ele, esse era o ofício de quem tinha uma preocupação grande com a cor. Ele não tinha compromisso com isso e só sabia usar o vermelho, o azul, o amarelo, o verde e, às vezes, o prateado. Então, o uso da cor nas telas de Amilcar não tem nada a ver com a maneira como elas são aplicadas na pintura”, frisa Castro, que ressalta, em seguida, a maior atenção do seu pai com o espaço e as linhas.

“É interessante que ele estudou com Guignard que sempre mostrava a seus estudantes a importância da linha e do desenho. Isso marcou o trabalho de Amilcar, que deu muita importância para a questão da linha. Quando vemos suas esculturas é possível perceber que elas nascem de um desenho no qual a linha demarca o espaço onde acontece o corte e a dobra”, conclui.

“Verticalidade”

Lemos de Sá Galeria de Arte (av. Canadá, 147, bairro Jardim Canadá, Nova Lima). Visitação: de 2ª a 6ª, das 10h às 18h; sáb. das 11h às 14. Gratuito.

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