Do amor, da vida, da solidão...

iG Minas Gerais | Bárbara França |

Divulgação
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Um bar, um piano, um ambiente à meia luz esfumaçado pelos cigarros acesos aqui e ali, entre frequentadores ingerindo suas doses de uísque. A voz melancólica de belas cantoras inunda o ambiente, todo ele um tanto introspectivo, enquanto um homem declama versos que exprimem as mais diversas delícias e dúvidas da sua existência. O cenário, que mais parece a Lisboa dos anos 20 ou o Rio de Janeiro da década de 1950, pertence ao espetáculo “Piano Bar”, que estreia em Belo Horizonte na próxima terça (14). A semelhança com a boemia daquela época, claro, não é mero acaso.

Afinal, os versos de que falamos são de Fernando Pessoa (1888- 1935) e Vinicius de Moraes (1913- 1980), poetas que exprimiram de maneiras bem particulares questões universais como o amor, a vida, a solidão, mas de maneira bem cotidiana, como se escrevessem no balcão de um butiquim.

“Os dois poetas são essa coisa da rua, bares, noite, bebida, cigarro, mulher, solidão, morte, tudo vivido como uma crônica. Eles estão vivendo a vida e fazendo a poesia ao mesmo tempo, a vida quase se dá em sacrifício mesmo, uma vida sem freios, sem contrições, sempre se arriscando, querendo ir além. Eles são muito corajosos para viver como poetas. Estamos interessados na emoção expressa pelo homem nessa trajetória de nascimento, amadurecimento e morte”, comenta o ator e diretor Alexandre Borges, que é quem incorpora os versos e declama seus poemas favoritos para o público.

O piano do português João Vasco completa o clima meio filme noir. O músico, ao lado do ator, idealizou o projeto como forma de unir as artes literárias lusobrasileiras. O repertório relaciona obras dos dois poetas e é aberto a reorganizações e novas inserções de poemas, dependendo do lugar a ser apresentado.

Ouro Preto

Para Minas, por exemplo, eles estão buscando, dentre outras coisas, no acervo de Vinicius de Moraes dedicado a Ouro Preto para dar uma cara mais íntima. Estreado em 2011, “Poema Bar” fez parte das comemorações do ano de Portugal no Brasil em 2013 e do centenário do poeta brasileiro. “Vasco queria fazer algo com música e poesia que unisse os dois países e chegou até mim porque tenho uma relação estreita com Portugal, já morei lá e foi naquela terra que tive o primeiro contato com Pessoa”, lembra Borges.

Ele tinha 20 e poucos anos e a poesia do heterônimo Álvaro de Campos foi como uma revelação. “Eu estava em um momento muito sensível, buscando uma carreira. O livro que ganhei naquela época é o mesmo que eu uso para ler no palco, o mesmo livro que me acompanhou”, conta. O contato mais aprofundado com o Poetinha (como Vinicius era chamado pelos amigos) se deu um pouco mais tarde, já maduro, mas igualmente arrebatador. Qual não foi sua surpresa quando a filha de Vinicius lhe disse que ele lembrava o poeta quando jovem?

Não tinha, portanto, como a escolha para a montagem ser diferente. “São dois poetas muito especiais pra mim e aqui, não quero botar em primeiro plano algum tipo de interpretação, não é uma performance. É algo que toca meu interior”, aponta. Sentimento compartilhado com o público, que também pode subir no palco e declamar seus poemas favoritos. Os de Alexandre Borges, ele revela: “Dobrada à Moda do Porto”, de Pessoa, e “Feijoada à Minha Moda”, do Vinicius.

Poema Bar

Sesc Palladium (r. Rio de Janeiro, 1.046, centro, 3270-8100, centro). Dia 14 (terça-feira), às 20h. R$ 40 (inteira)Ter.

14.out.

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