Bate debate 10/10/2014

iG Minas Gerais |

Chupa   Carolina Fernandes Leite Moderadora do Fiscalizando Contagem   Quando li “O que é Ideologia?”, da coleção “Primeiros Passos”, da filósofa Marilena Chauí, não imaginava que ela também iria usar a mesma expressão que eu usei num momento de euforia, em que a paixão anulou a razão. Isso mesmo. Na época, concordei de imediato com Chauí: “Ideologia: um mascaramento da realidade social que permite a legitimação da exploração e da dominação. Por intermédio dela, tomamos o falso por verdadeiro, o injusto por justo”.   Mas paro por aí em relação à ideologia. Nesta semana, após se confirmar no domingo a vitória de Ricardo Faria para ocupar uma vaga na Assembleia Legislativa, eu postei fotos de comemoração no grupo Fiscalizando, do Facebook, com a expressão: “Chupa”. Usei intensificando o sentido de outra expressão corrente: “Chupa essa manga”, que considero uma fruta, palatalmente, suave. Marilena Chauí deu um chupa-classe-média e foi aplaudida. Imagine um grupo Black Bloc chupa-classe-média. Sim, teve o apoio dela, que não foi criticada por isso.   Mas Chauí é Chauí, e o meu simples “chupa” se transformou em um debate ferrenho, polêmico e arriscado. Sei que a expressão é uma gíria popular que ouço inúmeras vezes. Tudo começou com o grupo musical Aviões do Forró e virou expressão popular, com o refrão: “Na sua boca eu viro fruta. Chupa que é de uva!”. Em meio às torcidas de futebol , a palavra se transformou numa forma de manifestação, de zoar o adversário, quando o seu time vence um jogo ou um campeonato. Já se tornou prática comum entre os torcedores. A expressão “chupa” faz parte do vocabulário do futebol. Está nos estádios, nos bares, na boca dos torcedores. Mas quando uma mulher usa como forma de mostrar sua satisfação com uma vitória política, os recalcados tiram as máscaras e extravasam o preconceito. Não ligo, não estou aqui para agradar ninguém. Tenho dito, sou o que soo, eu não douro pílula.   Na reedição do programa “Sai de Baixo”, da Rede Globo, o personagem Caco Antibes protestou contra o pastor e gritou: “Chupa, Feliciano!” Também foi aplaudido nacionalmente. Mas onde a falsidade e a arrogância imperam, minha expressão foi usada para replicar o ódio de quem não gostou da eleição do deputado Ricardo Faria. Felizmente, o povo votou e confirmou. Agora sei que ocupo um espaço importante no debate político desta cidade que amo e não vou me abster. Sei que a imagem de uma figura pública é construída pela luta da pessoa, seus pontos fortes, contra a imagem que os inimigos (que deveriam ser apenas adversários) e opositores querem estabelecer, focando os defeitos. Estou atenta.   Em uma sociedade livre, o Fiscalizando Contagem, grupo do qual sou moderadora e criadora, trata-se de uma nova esfera de ação comunicativa na web, que se organiza de forma independente. É um meio poderoso para a sociedade civil protestar, uma ampliação da comunicação e de relações. Mas ao lançar suas farpas contra um dos protestos, num contexto marcado por perseguição, o #Chupa pode voltar a estapear a cara de quem acha que é melhor do que os outros. Que o embate político continue, enquanto isso, está lançado o desafio: quem vai gritar “chupa” em 2016? 

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