Resposta de uma sulista

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Minha irmã Fabiana Agra, antes de tudo, quero deixar registrado que não tenho dúvida de que somos feitas da mesma matéria, e que nada me parece mais natural do que ser chamada de irmã por você. Como sulista por nascimento e sem muita convicção (por estar no meio do caminho, mineiro sofre de uma certa crise de identidade!), sua carta não só lavou minha alma, como confirmou o que sempre desconfiei – que o endereço da gente define muita coisa, do paladar ao sotaque, mas índole e empatia têm relação nenhuma com a geografia. Vai fazer uma semana que sinto uma mistura de vergonha, decepção e culpa diante da onda preconceituosa contra nordestinos que ficou escancarada nestas eleições e que a motivou a divulgar uma carta lúcida e, diria até, didática. Se pra mim já é um assombro saber que tem gente que pensa dessa forma tacanha, mais ainda foi encontrar por perto quem não se acanhe em materializar ideias tão mesquinhas e raivosas. Minha amiga nortista, sinceramente, eu também não entendo o porquê de tanto ódio direcionado a vocês. E padeço por poder fazer tão pouco para mudar isso aí. Sabe o que mais me espanta? É o desconhecimento histórico e a falta de memória de quem se gaba de ser mais escolarizado, mais bem informado. É muito pertinente você lembrar como o povo aí de cima foi explorado “através de uma colonização vil e de uma política perversa” e que “houve uma imigração planejada para os Estados do Sul e Sudeste”, mas é duro perceber que tudo isso não é o pedestal para todo e qualquer discurso sobre as diferenças do nosso país. Não vou nem me ocupar da vida melhor que você diz enxergar da sua janela. Só quem é testemunha do que é sobreviver na escassez, do que é ter por décadas governantes empenhados em manter um abismo social cruel e lucrativo, tem legitimidade para dizer como, quando e em que medida esse quadro começou a mudar. Então, daqui do Sudeste, não tenho opção senão acreditar em você. Também me sinto na obrigação de agradecer por tanto – pelo Severino de João Cabral de Melo Neto, pelo violão de Lenine, pelo Chicó de Suassuna, pela sanfona de Luiz Gonzaga, pela genialidade de Tom Zé, por uma lista que não tem fim – e dizer que foi muita generosidade sua colocar a culpa no estresse dessa nossa vida caótica. Quero que saiba que você, pra mim, é desde já modelo e exemplo.

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