Conto de fadas à mesa

Quando as crianças se recusam a comer bem, entram em cena as constantes brigas e tentativas frustradas dos pais de incluir pratos saudáveis. Mas é possível controlar a birra e fazer do momento da refeição uma hora mais gostosa

iG Minas Gerais | Lygia Calil |

JOAO GODINHO / O TEMPO
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Será possível melhorar a alimentação das crianças e ainda transformar a hora das refeições em um momento de alegria para pais e filhos?

Para quem sofre em casa com uma criança que não come bem, uma resposta positiva a esses dois questionamentos pode soar como conto de fadas. Com doses controladas de paciência, boa vontade e estratégia, é possível, sim. Mas a mudança deve começar com os pais, que, para cobrar hábitos saudáveis das crianças, devem ter eles próprios uma alimentação balanceada.

Para isso, não é preciso inventar muito. Segundo a nutricionista Pâmela Sarkis, a clássica combinação brasileira de arroz e feijão é fundamental (ainda melhor se o arroz em questão for integral). Complete o prato com alimentos crus (como alface, tomate e cenoura), um tipo de carne magra (ou frango), mais uma cor de vegetal cozido diferente a cada dia (variações como abobrinha, chuchu, brócolis, couve, couve flor, repolho) e pronto: prato balanceado, que alimenta pais e filhos.

No dia a dia, segundo Pâmela, existem erros que podem atrapalhar a fase de crescimento – o principal é misturar, na mesma refeição, laticínios e carnes. “Os laticínios possuem cálcio e as carnes o ferro. Ambos são importantes, porém não são absorvidos simultaneamente. Devem ser consumidos separadamente nas refeições”, explica.

A dentista paulistana Nívea Salgado garante que conseguiu melhorar a alimentação da filha Catarina, 3, sem drama. E ainda mantém o blog 1000 Dicas de Mãe para trocar suas experiências com outras mulheres interessadas em fazer o mesmo.

O primeiro obstáculo. Quando começou a experimentar outros sabores além do leite materno, por volta dos seis meses de idade, Catarina passou pelo primeiro período de adaptação. Até então, segundo Pâmela Sarkis, os bebês estão acostumados ao seio materno, à textura e ao sabor do leite humano. Nos primeiros contatos com os novos paladares, é comum que estranhem o que chega à boca, ainda mais com outra grande novidade, os talheres. Em geral, este primeiro período dura pouco e se mostra mais fácil do que os seguintes.

A próxima fase complicada é a que Catarina passa agora, entre os dois e quatro anos. É tão delicada que os especialistas de língua inglesa a apelidaram de “terrible two”, ou os dois anos terríveis. Nesta idade, os pequenos já andam, falam e expressam suas vontades de forma autônoma e, mais importante, não aceitam ser contrariados – e tentar bater de frente com eles é tarefa inglória.

Aconteceu com a filha de Nívea: ela simplesmente parou de comer frutas, até aquelas que já comia antes. “Do nada, ela começou com isso. Foi um momento difícil, que transformou a hora de comer em tensão. Eu ficava brava e, ela, frustrada”, relembra.

No lugar de tentativas como brigar, negociar e chantagear, a saída encontrada pela dentista foi lúdica e pode até ser chamada de artística. No dia 1º de janeiro deste ano, depois de a filha recusar-se a experimentar um damasco seco, teve uma ideia. Inspirada no que já via na internet, transformou a fruta em um desenho no prato. “O primeiro pratinho foi uma coruja. Peguei o damasco e fiz dele um sol, em cima do bichinho, feito com torrada. A primeira coisa que a Catarina comeu do prato foi o damasco e gostou. Ali, acendeu uma luz para mim”, relembra a mãe, que transformou a ideia em um hábito, com alimentos do cotidiano – em suas criações, usa pão, arroz, feijão, carnes, legumes e, claro, as (antes temidas) frutas.

Hoje, ela já não usa mais a estratégia diariamente, mas sempre que necessário. “Até minha relação com ela melhorou. Não sou mais a mãe chata que impõe coisas que ela não quer, mas sim a mãe legal que faz os personagens preferidos dela no prato. Virou uma brincadeira para nós duas: às vezes, deixo que ela decore o meu prato enquanto eu decoro o dela”, diz.

Segundo Pâmela, hábitos como o de Nívea e Catarina devem ser incentivados, porque essa é uma fase decisiva para a formação do paladar. “Os alimentos aceitados nesta fase serão aceitados para sempre” diz a nutricionista, que completa: “A criança tem que ter contato com os alimentos, ter a curiosidade de saber o que está comendo, ver como é o ingrediente cru e cozido, entender como os processos acontecem. Isso aumenta muito a aceitação e melhora a relação com a comida”.

Mais uma fase. Passados os terríveis, eis que chegam os seis anos, outro período igualmente difícil. Catarina ainda está longe deles, mas Miguel, de sete anos, passa por essa fase. A mãe dele é a jornalista Patrícia Cerqueira, uma das autoras do site Comer para Crescer, pioneiro da “blogosfera” de alimentação infantil, hoje um portal sobre o assunto. Nesta idade, as crianças começam a sofrer influência do meio em que vivem, tomam os colegas da escola de exemplo e estão expostos a inúmeras atrações, como salgadinhos industrializados, sanduíches, doces e refrigerantes.

Assim, a criança deixa de se alimentar de forma balanceada e troca qualquer vegetal por um produto industrializado. Estar atento para controlar tamanhas tentações é dever os pais. “Quando a coisa começou a ficar feia, nossa mesa parecia um ringue de UFC”, exagera Patrícia.

Para ela, estratégias lúdicas sempre funcionam, mas o que mudou a condição dela, em casa, foi ter pulso firme nessas horas, não cedendo aos caprichos do filho. Por outro lado, avalia, foi importante compreender o gosto de Miguel e não servir só alimentos que sabe que o garoto, depois de ter experimentado várias vezes, não aprecia. “Sei que ele detesta coisas com textura mole, então procuro oferecer alimentos crus, às vezes, empanados e fritos. Mas se ele torce o nariz para tudo o que é servido, também não vou me desesperar. Que coma arroz, feijão e carne. E sem bolacha entre as refeições”, diz, citando o livro “Crianças Francesas Comem de Tudo”, de Karen Le Billon, como uma grande influência.

Para Pâmela Sarkis, mudar a maneira de servir determinado ingrediente é um exercício fundamental, até que os pais encontrem a forma que a criança mais se adapta a comer. “A cada ano de vida as papilas gustativas sofrem modificações e os alimentos devem ser testados novamente. O brócolis, por exemplo, pode ser cozido, mas também servido no purê, no arroz, na sopa, na massa de um muffing salgado”, enumera.

Especialmente para o Gastrô, ela criou um bolo funcional de chocolate, que além de poder ser decorado de forma lúdica, faz bem (veja a receita no Gastrô online). Quem testou o quitute foi Vitória Fernandes, de oito anos, que visitava a Saluteria, loja de Pâmela, no momento das fotos. “Ela ficou curiosa e quis experimentar. Trouxemos o bolo para casa e ela gostou bastante. É importante oferecer comidas saudáveis, mas que ainda assim encantem, principalmente nessa fase”, explicou a mãe de Vitória, Fernanda Teixeira, também nutricionista, no dia seguinte à experiência.

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