Iniciando as mudanças

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Quase nunca uso este espaço para falar de política, mas o momento que vivemos acaba me obrigando a isso. Não posso dizer que sou uma pessoa apolítica, que só se dá conta dos candidatos na hora da eleição. Muito pelo contrário, acordo e durmo política no meu dia a dia. Quando abro o jornal no primeiro caderno, devoro notícias, opiniões, artigos e até mesmo as cartas dos leitores. Como se não bastasse O TEMPO, entro na internet, em que leio a “Folha”, o “Estadão” e blogs de maneira geral. No carro, ouço a CBN, ultimamente ligada ininterruptamente. Enfim, sobrinha-neta de Cristiano Machado, desde pequena, escuto sobre o assunto. Lembro-me quando existiam Arena e MDB. Na faculdade, era incompreendida por não ser “maoísta”. Mas não me importava e assumia numa boa minha posição moderada. Era uma época em que eu não participava muito. Para bem dizer a verdade, não fazia a menor ideia do que acontecia por trás dos panos. Depois, já adulta, acabei me envolvendo com movimentos comunitários e sociais que levam direto aos políticos. Foi quando passei a ter consciência da importância do “ser político”. Para fazer política, descobri que não precisamos necessariamente estar filiados a um partido. A verdadeira política se faz com paixão, com amor a uma causa, com desprendimento – vontade de realizar. É ensinar como se faz um mutirão, uma reivindicação aos órgãos competentes, a conscientizar as pessoas de seus papéis como seres inseridos numa sociedade cujas necessidades básicas devem ser atendidas. Descobri que não é brigando, instigando lutas de classes, que se chega a algum lugar. Muito pelo contrário, isso só faz acirrar e aumentar as diferenças. Lembro-me de quando, há muitos anos, nas proximidades de minha casa, acampada no jardim da igreja, uma multidão de sem-teto dormia debaixo de lonas pretas. Confesso que aquilo incomodava. Vizinhos reclamavam da bagunça e do mau cheiro, quando não diziam do perigo da violência. Mal sabia que aquelas mesmas pessoas, um dia, passariam a fazer parte do meu convívio, quando, levada por uma amiga, como eu, envolvida em movimentos comunitários, fui apresentada ao Assentamento de Terra da Comunidade São Francisco de Assis, uma iniciativa do então prefeito Pimenta da Veiga. Naquela época, existia apenas o terreno com suas ruas de terra, repleto de bichos-de-pé. As lonas pretas eram as mesmas onde famílias inteiras com um mundo de crianças repartiam o exíguo espaço. Não havia água encanada, apenas poeira e um córrego barrento aonde levavam seus baldes e latas. Não saíamos de lá, levando mantimentos, remédios, arrumando alguns empregos, ajudando aqui, ali, encaminhando-os ao posto de saúde, enfim, acompanhando o dia a dia daquelas pessoas. Em um ano, vimos o local se transformar. Hoje, mais de 15 anos depois, é considerado um exemplo de assentamento bem-sucedido. Quando passo por lá e lembro-me das dificuldades iniciais, me vem um contentamento ao ver as ruas asfaltadas, as casas com varandas e samambaias, pessoas vivendo com dignidade. O assentamento foi para mim o exemplo maior de que, quando há vontade política, e envolvimento da sociedade, as coisas tornam-se possíveis. Que bom seria se, no lugar de ficar apenas reclamando, cada um também fizesse a sua parte. E que bom seria se muitos da classe política, em vez de olharem para seus próprios interesses, locupletando-se com os meios mais escusos e ilícitos para se perpetuarem no poder, fizessem a verdadeira política, com idealismo, consciência, desprendimento, inteligência e amor. Hoje estou feliz. O candidato a deputado federal em que votei se elegeu com 87.113 votos. Feliz, porque vejo nele e em outros como ele uma esperança de renovação. Vejo um ideal que somente os jovens conseguem carregar com tamanho entusiasmo. Nele, vejo os milhares de manifestantes que no ano passado, com cartazes na mão, reivindicavam mudanças. Vejo coragem para se opor ou, pelo menos, não se curvar aos tubarões que irá encontrar pelo caminho. Sei que no início terá dificuldades; estar no meio de 500 cabeças diferentes, muitas com interesses condenáveis, e se situar em meio a tantas diretrizes, não será uma experiência fácil, mas, com certeza, das mais ricas e fortalecedoras. Descobrirá com certa decepção que as coisas ali não funcionam exatamente como gostaria. A lentidão dos processos, a burocracia, a indiferença, os empecilhos, as ideias contrárias, as disputas internas e partidárias, lobistas “famintos” com propostas indecentes, o “balcão de negócios” com oportunidades inescrupulosas, tudo isso lhe trará decepções, constrangimentos e, em certos momentos, vontade de chutar o balde, mandar todos ao inferno e voltar pro conforto de sua casa. Mas é sofrendo e apanhando que se criam cascas. Cascas que o protegerão por toda uma vida e o tornarão ainda mais disposto e instigado a aceitar os desafios. Estou feliz, porque vejo que as sementes das mudanças estão aparecendo aos poucos. Novas mentalidades, cabeças tomadas de ideias e ideais, cidadãos conscientes de suas responsabilidades, sensíveis, humanos e com vontade de mudar, darão início à limpeza necessária e urgente do lamaçal de sujeiras que assola o nosso país.

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