Legalize já, legalize já

Documentário “Ilegal” estreia hoje, retratando a batalha de mães pelo uso da maconha medicinal no Brasil

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Instinto. Katiele Fischer se tornou traficante de canabidiol para o tratamento da filha
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Instinto. Katiele Fischer se tornou traficante de canabidiol para o tratamento da filha

Uma das principais manchetes resultantes das eleições do último domingo é a triste constatação de que o novo Congresso Nacional é o mais conservador desde 1964. Independente de orientações e partidos políticos, o que isso torna impossível negar é que discussões contemporâneas importantes, como a pesquisa com células-tronco, o aborto e os direitos humanos de minorias serão ignorados, ou ficarão à mercê de influências religiosas e morais. Que funcionários eleitos e pagos para legislar sobre questões técnicas irão, na verdade, moralizar sobre a dor, o prazer e o direito dos outros a uma vida decente. E não importa qual o presidente eleito, ele não deve conseguir mudar isso.

O que o documentário “Ilegal” mostra é que, se o presidente não é um adversário à altura, o instinto animal de uma mãe lutando pelo bem-estar de seu filho é. É desse laço universal da maternidade que o documentário, que estreia hoje em Belo Horizonte, parte para discutir o uso medicinal da maconha. O longa dirigido por Tarso Araújo e Raphael Erichsen acompanha a luta de um grupo de mães obrigadas a se tornarem “traficantes” do canabidiol (CBD), substância encontrada na cannabis sativa e único remédio capaz de controlar as convulsões causadas pela epilepsia refrataria, doença rara que acomete seus filhos.

“O que o filme defende é uma política baseada em evidências. E temos muitas evidências de que a maconha pode aliviar o sofrimento de muitos doentes”, afirma o diretor Tarso Araújo. O problema, segundo ele, é que infelizmente a política brasileira hoje ainda fecha os olhos para esse potencial terapêutico da planta. “Por causa de uma série de preconceitos e valores morais que estigmatizam os usuários e que foram arraigados na sociedade ao longo de décadas de provincianismo”, analisa.

“Ilegal” surgiu de uma reportagem sobre maconha medicinal produzida por Tarso para a revista “Superinteressante”. Depois de encontrar muitos casos de pacientes que faziam uso da maconha vaporizada, ele foi atrás de alguém no Brasil que estivesse usando o CBD para epilepsia, tratamento que se tornou bastante comum nos EUA recentemente.

“Quando conheci o benefício que a Anny estava tendo com o produto, e a tensão que a Katiele vivia por depender de um comportamento ilegal, eu falei ‘tenho que ajudar essa mulher’”, explica Araújo. Anny é uma garotinha de cinco anos, portadora da epilepsia refrataria, e Katiele Fischer é sua mãe, que pode ser considerada a protagonista de “Ilegal”. Por meio da batalha dela contra a burocracia da Anvisa e da sua luta pelo fim da proscrição do CBD – que proíbe que médicos forneçam a receita indispensável para a liberação das ampolas na alfândega –, o filme constrói seu argumento irrefutável do direito básico de uma criança ao tratamento médico adequado e à qualidade de vida.

“É a história de uma brasileira lutando com todas as suas forças para ter acesso a um direito que o Estado deveria garantir a ela”, define o diretor. E Fischer assume de corpo e alma o papel da heroína em uma cruzada por justiça. É bastante óbvio como ela e as outras mães estão claramente atuando para a câmera do documentário em alguns momentos, convencidas de que, se fazer de suas vidas um filme hollywoodiano é o único jeito de ganhar essa briga, elas serão as Erin Brockovich que o cinema brasileiro nunca teve.

“Não é um filme médico, científico. Sempre foi a história de uma mãe tentando ajudar sua filha. Desde o começo, era essa a história que eu queria contar”, afirma Araújo. Com a repercussão da reportagem em programas de TV, a história se tornou um curta e, em cerca de seis meses, um longa que abarcou outras histórias. Uma delas é a da mãe que descobriu o câncer de ovário durante a gravidez e encontrou na maconha a única solução para os enjoos da quimioterapia. A erva foi plantada pelo marido, que foi descoberto pela polícia e está sendo julgado por tráfico internacional de drogas.

“A rapidez do filme foi devido à urgência do assunto, que a gente não queria deixar esfriar”, argumenta o diretor. Para ele, a legalização da maconha é um debate longo, complexo e polêmico, mas o uso medicinal, não. “Nós não devemos castigar as famílias de pessoas doentes a uma espera que pode levar décadas”, pleiteia. Outro ponto importante em que o filme toca e que explica a falta de interesse oficial em discutir o assunto e realizar os ensaios clínicos necessários é que o CBD é uma substância natural, sem patentes, portanto a indústria farmacêutica não lucraria com seu uso (mais uma vez, o grande capital se valendo de moralismos conservadores para manter seus interesses). Quem lucraria seriam as 600 mil crianças portadoras de epilepsia refratária. Dezenas de milhares de pacientes de esclerose múltipla. Ou os 560 mil novos casos de câncer previstos somente em 2014.

É por isso que “Ilegal” é daqueles filmes que vai te deixar com raiva, querendo gritar com alguém quando ele acabar. “Independente de outros progressos necessários no campo da política de drogas, espero que, pelo menos a questão da maconha medicinal, não seja negligenciada por esse Congresso porque não estamos falando de nenhuma frivolidade”, avalia Araújo. Para ele, a dor sofrida por esses pacientes, e por mães como Katiele, que vê a filha sofrer até 50 convulsões por dia, não pode ser ignorada por ninguém – muito menos pelos políticos. “O Estado tem o dever de garantir ao cidadão o acesso à saúde, e não punir quem está batalhando por isso”, conclui.

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