“O que existe além do cérebro continua sendo um mistério”

Marcello Árias Danucalov - Doutor em psicobiologia

iG Minas Gerais | Ana Elizabeth Diniz |

Gino Pasquatoo/divulgação
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O que é a consciência? Temos controle sobre nossas paixões? Essas são algumas questões existenciais cotidianas que já foram investigadas pela filosofia e hoje são objeto de estudo da neurociência. Marcello Árias Danucalov, professor de filosofia e ética, doutor em ciências (psicobiologia), filósofo e coach ontológico fala sobre cérebro, mente, Deus, fé.

Existe uma realidade além da nossa percepção? A filosofia há muito se questiona sobre o que é possível conhecer. Immanuel Kant nos legou uma obra primorosa, “A Crítica da Razão Pura”. Nela, ele já afirmava que o ser humano nunca terá acesso a realidade em si, somente aos fenômenos dessa realidade. Hoje, a neurociência nos ensina que todo ser vivo tem um sistema nervoso, e este, apesar de complexo, é limitado, o que condiciona as percepções, pois o sistema nervoso serve como um filtro. Quanto mais complexo for o sistema nervoso, provavelmente, mais refinada será a percepção. Todavia, onde alguns seres enxergam a cor vermelha em uma rosa, outros perceberão tonalidades de verde ou preto. A questão que se torna imperativa é: qual a cor da rosa quando ninguém está olhando para ela? Hoje, sabemos que é no sistema nervoso que as percepções são geradas. A realidade é uma somatória entre estímulos externos e processamentos cerebrais internos. O que existe além do cérebro continua sendo um mistério.

A física quântica fala que criamos a realidade. Isso é verdade? A física quântica nunca afirmou isso. O que existe é uma apropriação indevida de fatos científicos advindos do estudo das partículas subatômicas. Filmes como “Quem Somos Nós”, ajudaram a propagar essa crença. Todavia, esse filme não é científico. Seus próprios diretores sempre afirmaram que era um filme ficcional. Em sua versão estendida foi concedido um tempo extra para que alguns cientistas participantes da primeira versão pudessem gravar depoimentos em que, na realidade, negavam a ideia principal da primeira versão.

A neurociência pode explicar a existência da consciência? E da alma? O estudo da consciência é um dos pilares da neurociência. Todavia, é preciso prudência quando se fala de alma. Se a alma aqui é, como na antiga Grécia, a denominação de pensamento, certamente é um assunto que diz respeito à neurociência. Todavia, se estivermos falando da alma cristã, esse é um assunto da fé, que nada tem a ver com o campo de saber científico. Nos últimos anos tem existido um debate entre neurobiólogos e filósofos. Esses últimos afirmam que os neurocientistas têm cometido um equívoco de ordem lógica, ao afirmar que o cérebro forma a mente. É comum no meio científico colocar como sinônimos a palavra brain (cérebro) e a palavra mind (mente, mas são conceitos distintos. O neurocientista só pode afirmar que existe certa correlação entre estados cerebrais e mentais. Todavia, muitos deles já afirmam,sem muita parcimônia que “o brain cria a mind”. Infelizmente, não podemos afirmar isso!

A fé e as crenças religiosas podem atuar ou modificar as ondas cerebrais? Toda atividade humana, seja ela qual for, modifica o cérebro e, consequentemente, as ondas cerebrais. Isso é um acontecimento corriqueiro no cérebro. Absolutamente normal. Todavia, houve uma veiculação na mídia que extrapola muito a simplicidade desses acontecimentos. Como um órgão controlador do corpo, e que faz uso de impulsos elétricos, é de se esperar que qualquer atividade cognitiva seja refletida em padrões singulares de atividade eletroquímica cerebral.

Sabemos que o lado direito do cérebro está relacionado às emoções e o lado esquerda à racionalidade. O ser humano usa os dois lados do cérebro de forma equilibrada ou prevalece algum hemisfério? Esse é outro conceito equivocado. O lado direito não controla as emoções, e sim processos abstratos. O lado esquerdo trabalha com conceitos mais racionais. Essa é outra simplificação exagerada. O cérebro é infinitamente mais complexo do que a maioria das pessoas supõe. Não existe processo racional puro, e nem tampouco processos abstratos. A todo momento estamos usando o cérebro em sua totalidade. Lado esquerdo e direito nunca trabalham sozinhos. Isso é um mito que deve ser superado.

A ciência diz que os meditadores estimulam uma área no cérebro que controla a atividade mental. Isso é possível? .Tudo é atividade mental. Memória, sonhos, pensamento, sentimento, emoções. A meditação ativa todo o cérebro, mas por ser uma atividade que necessita de grande concentração, com o tempo os meditadores desenvolvem as áreas relacionadas à manutenção da atenção (córtex pré-frontal, giro cingulado) e isso, supostamente, concede a eles uma maior capacidade de observar seus pensamentos e não ser tão envolvidos e sequestrados por eles. Isso, segundo as pesquisas científicas, ajuda os meditadores a contrapor-se a alguns tipos de estresse psicofisiológico

Há algum espaço para Deus dentro do cérebro? A neuroteologia é .uma parte da neurociência que estuda em laboratório quais as supostas áreas do cérebro que concederiam a algumas pessoas a capacidade de vivenciar experiências místicas e religiosas. O neuroteólogo não quer provar a existência de Deus, quer entender como essa experiência é processada no cérebro. Seja Deus uma realidade, seja um delírio, provavelmente necessita do cérebro para se manifestar.

Em que ponto a filosofia flerta com a neurociência? Em quase todos. O que é a consciência? O homem é livre ou suas ações são condicionadas? Temos controle sobre nossas paixões? O que é a beleza? Enfim, todas as questões existenciais mais prementes foram investigadas pela filosofia, e hoje, são objeto de estudo das neurociências.

Os estados alterados de consciência podem ser aferidos pela neurociência? Perfeitamente.

A jornalista Ana Elizabeth Diniz escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail: anadiniz@terra.com.br

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