A infância revisitada de Zuza

Evento terá presença da escritora que foi moradora de rua e que concorre ao prêmio Jabuti com seu livro de estreia

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Memória. Zuza planeja escrever livro sobre a Escola de Samba da Cidade Jardim e os personagens que participaram de sua história
joão natalino/divulgação
Memória. Zuza planeja escrever livro sobre a Escola de Samba da Cidade Jardim e os personagens que participaram de sua história

A literatura parece ser um caminho para aliviar as agruras da vida. Foi assim com a catadora de lixo Carolina Maria de Jesus e seu emblemático livro “Quarto de Despejo”, de 1960. Agora, a história volta a se repetir com Maria de Jesus Silva, a Zuza, ex-moradora de rua de Belo Horizonte, que lançou o livro “Divã de Papel” e participa hoje do projeto Terças Poéticas, na Casa Una de Cultura, com entrada gratuita.

O livro de estreia de Zuza concorre ao Jabuti de 2014, na categoria biografia. O prêmio é um dos mais importantes do país. “Esse livro funcionou como uma espécie de terapia para mim”, comenta a escritora. Em suas páginas, a obra volta à infância da menina Zuza e seus quatro irmãos, nas ruas da cidade. “Eu tive um pai ausente, praticamente não o conheci. Aliás, eu tinha medo de homens, achava que eles eram bichos, animais perigosos. Fomos criadas por minha mãe e vivíamos na rua, livres, pedindo esmola, frequentando as feiras, lugares onde tinha mais gente”, relembra.

Mas como foi mesmo que, mais tarde, manicure Zuza, se transformou em escritora? “Eu trabalhava em um salão de beleza, como manicure e tinha hábito de contar minhas histórias para as freguesas. Eu sempre falava mais. Era um jeito de fazer o tempo passar. Até que um dia, a Vera Lúcia (Felício Pereira, professora da Faculdade de Letras, da PUC Minas) disse que eu deveria colocar essas histórias no papel”, revela.

Zuza, que nunca havia escrito, começou, então, suas “sessões de terapia” com o caderno. “Às vezes, minha mão não conseguia acompanhar meu pensamento, que é muito rápido”, se diverte ela. Com tamanha história de vida é difícil saber exatamente o que chama a atenção no livro de estreia dela: o conteúdo, a forma de escrever ou a combinação dos dois fatores. “Acho que consigo levar para o livro essa facilidade que tenho com a fala, mas eu falo muita gíria, sou muito desbocada e isso não vai para o papel”, comenta a escritora.

Sobre contar memórias de infância tão repletas de sofrimento, a escritora acredita que seja algo que vai ser positivo. “As pessoas cultas e ricas se interessam pelo que passei. Vejo que meu passado sofrido e esmerilado, se transformou em um livro. Acho que ele abriu possibilidades para mim e para as outras pessoas”, comemora ela, que dentre suas inúmeras histórias tem uma candidatura mal-sucedida a vereadora de Belo Horizonte, em 2012. “Tive poucos votos, acho que 348, mas não fiquei triste com isso”, comenta.

Ela faz planos para o futuro como escritora. “Você reparou que eu não falo sobre amor nesse livro?”, indaga ela. “Eu queria escrever um livro chamado ‘Os Opostos’, sobre dois namorados que tive: um muito dedicado e bom, outro muito mentiroso”. Por hora, no entanto, outro projeto parece cativar mais a artista, sua relação com a Escola de Samba da Cidade Jardim. “Eu sempre brinco que vou no meu morro. Eu quero resgatar histórias passadas da Escola, seus personagens, vou entrevistar as pessoas que conviveram comigo e escrever esse livro que deve se chamar ‘Nasceu Assim’”.

Música. Além de Zuza, o projeto Terças Poéticas terá hoje a presença do poeta e músico paraense Renato Torres e do escritor e jornalista Rogério Zola Santiago, editor de “Divã de Papel”. Torres irá fazer uma combinação musical poética em um sarau e apresentará ao público mineiro seu primeiro livro, lançado este ano, “Perifeérico”. Além disso, a ensaísta e professora de literatura, Bianka de Andrade Silva vai falar da música como memória da humanidade.

Agenda

O quê. Terças Poéticas com Maria de Jesus da Silva, Rogério Zola Santiago e Renato Torres

Quando. Hoje, às 19h

Onde. Casa Una de Cultura (rua Aimorés, 1.451, Lourdes)

Quanto. Entrada franca

Semelhança

A biografia de Zuza faz lembrar o livro “Quarto de Despejo” (ed. Sinal Aberto), escrito por Carolina Maria de Jesus, em 1960. A catadora de papel, em seu diário, relata sua difícil rotina, em uma favela paulistana, entre a educação dos filhos e a busca pela sobrevivência.

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