O Neo-PMDB

iG Minas Gerais |

acir galvao
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“O segundo turno está delineado: Dilma x Aécio. Tudo bem. Eu não sei quem vai ganhar, mas estou numa boa, porque eu já estou eleito. Eu sou do PMDB, e todos sabem que sem mim ninguém governa o Brasil. Temos interesses, claro. Queremos muitos cargos nos ministérios importantes, porque, sem nós, não tem comuna, ou liberal, ou seringueira que se deem bem. Não há casamento sem interesse. É belo o interesse. A honestidade alardeada é hipocrisia de teóricos. Não é assim que essa tigrada do PT fala: ‘os fins justificam os meios’? Pois é, nós somos os meios. Digamos que a presidenta se reeleja, ela virá com a tropa toda para se vingar das campanhas movidas contra o desastre de seu primeiro governo. Mas nós seremos os para-choques, os amortecedores do desejo utópico que eles professam de tudo controlar. Não conseguirão realizar seu sonho ideológico, esse ‘Frankenstein’ de ‘bolivarianismo’ com um ‘janguismo’ tardio, um getulismo do Estado Novo, um neoperonismo e neopeleguismo tropical. Nós dissolveremos tudo. Não que sejamos democratas convictos, mas somos os defensores das anomalias criativas que nos formaram. Não entendem? Explico. O PMDB é um exército de amigos unidos – qual o mal? Admire a beleza superior desse imenso patrimônio espiritual que nós possuímos, tanto em nosso partido como nas alas aliadas. É uma beleza feita de amizades, famílias amplas, burocratas cooperativos. E tem mais: nós, do PMDB, temos um projeto, sim, para este país... Um projeto muito mais pragmático, mais progressista que esses dogmas de 1917 – abstrações ridículas como ‘controle social’, ‘comitês centrais’, ‘palavras de ordem’. Esses comunas pensam que a gente é babaca. São séculos de aprendizado. O PMDB é uma das mais belas florações de nossa história. E nossos fins são sábios, experientes, são frutos de uma grande tradição brasileira que os maldosos chamam de ‘corrupção’, quando são hábitos incrustados em nossa vida como a cana, o forró, nossos bigodes que chamam de ‘brega’, as ancas das amantes risonhas com joias de ouro tilintando diante da palidez infeliz de nossas esposas. Vocês não entendem que isso é a cara do país? Vocês, jornalistas, reclamam de nossa ‘voracidade’. E os milhares de petistas que invadiram o batatal do poder para comer tudo, os ex-pelegos hoje de gravata? Quem disse que eles são mais brasileiros do que nós? Eles são clones, covers de leninistas antigos, são russos, ou cubanos, ou venezuelanos ‘honoris causa’. Nosso projeto é mais Brasil... ‘São coisas nossas, muito nossas...’ como cantou o Noel. Nosso projeto é uma girândola de malandragens, de negociatas que deixam cair pelas brechas das maracutaias migalhas de progresso. É isso aí: tudo que houve de bom no país foi fruto do adultério entre o privado e o público. Não, caro jornalista, não há corrupção no PMDB – trata-se apenas da continuação de um processo histórico. O dinheiro que arrecadamos em emendas do orçamento, em gorjetas justas entre empresas e burocratas não pode ser tratado como ‘corrupção’ de uma maneira simplista. Esse dinheiro sempre foi a mola do crescimento do país. Haveria Brasília sem ela? Onde estaríamos nós – na roça de um país agropastoril? Essa é a eterna verdade desde a Colônia, tão eterna quando a miséria que sempre haverá. A classe dominante deste país é uma grande família, unida por laços de amizade total, mesmo que definhe sob nossos pés a massa de escravos em seus escuros mundos. Ai, que angústia! Eu queria estar no futuro. Quem ganhará no segundo turno? A gorda brizolista ou o tucano pós-moderno? Se o Aécio for presidente, ao menos ele conhece a dinâmica de nossos processos, ele é neto de um grande negociador que nos entendia bem. Se Dilma ganhar e quiser nosso apoio para governar, ela vai penar. Que contrapartidas ela nos dará? Quanta grana para nossa cumbuca? Se ela nos olhar com o mesmo desprezo com que julga os parlamentares, se quiser nos dar esporros e enganações, ela vai quebrar a cara, vai ter de botar o galho dentro. Hoje, o PMDB tem uma missão mais séria do que nunca. Temos a fama, a pecha, a nódoa, a tacha de sermos oportunistas e desonestos. Tudo bem, temos esses traços de caráter em nossa formação, mas agora conquistamos uma nova ideologia. Somos herdeiros do velho MDB, que já teve uma grandeza abstrata, até meio ridícula, com aqueles sonhos ideais do Ulisses Guimaraes (oh, velho ingênuo). Agora, temos uma meta, uma tarefa muito mais profunda: manter o Brasil em banho-maria contra mudanças e novidades. O PT, que nos desprezava, ‘desapropriou’ muito mais do que nós e, justiça feita, repartiu (se bem que contrafeito) parte de seus lucros conosco. Vai surgir um novo PMDB, muito além da velha guarda de Sarney, Renan e outros. O Neo-PMDB é muito mais aguerrido, com consciência de sua missão: impedir que o Brasil entre em delírio utópico de comunas malucos e impeça o livre funcionamento da boa e velha política parlamentar. Vigilantes, seremos a peneira da nacionalidade. Nós somos muito mais o Brasil profundo do que esse bando de falsos revolucionários que chegaram aí, com um sarapatel de ideias superadas de um leninismo mal-lido, um getulismo tardio e um desenvolvimentismo sem JK. Só o PMDB explica o Brasil de hoje. Eu por exemplo: tenho 400 anos desde meu bisavô negreiro e tataravô degredado. Eu tenho raízes, tradição. Durante quatro séculos, homens como eu criaram capitanias, igrejas, congressos, labirintos. Mas, Dilma, não se preocupe. Eu sou otimista – acho, sim, que a aliança PT-PMDB poderá ser doce e linda. Mas do nosso jeito: vaselina, mãos nas coxas, só a cabecinha, nada de penetrações radicais. Tudo bem que censurem a imprensa e coisas menores, mas em nosso passado de donatários ninguém toca. Temos no peito o orgulho de proteger a sobrevivência de nossa colonização portuguesa. O PMDB é a salvação da democracia; suja, mas muito nossa.”

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