Eleições nota 10. Perspectivas, nem tanto

iG Minas Gerais |

No local onde votei ontem, num colégio do bairro São Bento, em Belo Horizonte, tudo aconteceu no figurino do TRE para que os eleitores cumprissem seu dever. Espaços limpos, bem iluminados, gente organizada para receber, informar, um completo clima de gentileza e ordem quase inglês. Faltou o serviço de manobristas, mas sinto que algum gaiato vai incluir o conforto na pauta de suas próximas campanhas. A Justiça Eleitoral não falha no apronto das eleições. Há muito que isso se repete com a mesma qualidade e eficiência, em todo o país. Urnas eletrônicas, muitas já equipadas com identificação biométrica dos eleitores, treinamento, logística, tudo operando com exatidão e presteza. Baniram a incômoda boca de urna, que antes exagerava no constrangimento dos votantes, para que os abordados acreditassem na certeza da opção pelo candidato que recomendavam. Havia santinhos jogados nas ruas, mas em menor quantidade do que nos certames anteriores. De tão organizada e linear, a festa acabou ficando burocrática demais, sem altercações, sem prisões em flagrante, sem bate-boca de partidários, sem excessos de candidatos, comuns nos eventos anteriores. Estamos mudando de comportamento no dia das eleições, exatamente num momento em que a obrigatoriedade do voto é questionada nos quatro cantos do Brasil. Estamos ficando ordeiros num momento em que as eleições, a se julgar pelo acontecido nos pleitos anteriores, em nada contribuíram para que o Brasil encontrasse outros caminhos na relação do Estado com suas obrigações constitucionais e com seus cidadãos. As manifestações do ano passado aconteceram em todo o país em nome da luta por mudanças gerais, especialmente nos níveis de oferta e qualidade da educação. Foi denunciado o baixíssimo padrão dos serviços de saúde pública, sem privilégio de região, Estado ou município, para dizer que esse não era (e não é), na dimensão dos que protestaram, o serviço que a população requer. Alardearam-se a falta de segurança, a precária estrutura do transporte público e da mobilidade urbana, o déficit de oferta da habitação para os sem-casa, sem-teto ou sem-tudo. Ontem, fomos participar do processo eleitoral com as mesmas demandas dos protestos de junho de 2013 não atendidas ou ainda muito mal-encaminhadas. Nesta segunda-feira, acordamos na companhia de alguns nomes novos, escolhidos pacífica e democraticamente, como é o correto e desejável, para a efetiva ou potencial chefia do governo federal, para o governo dos Estados, para nossa representação no Senado, na Câmara e nas Assembleias Legislativas. O que mudou a cabeça do povo? Podemos nos dar como satisfeitos com o país que hoje temos? Com nossos governantes e seus programas, que, aliás, nunca nos foram apresentados para que sobre esses opinássemos? As cidades não têm segurança, a educação é uma mentira da propaganda oficial, a saúde, um crime dos que apresentam-na como adequada. Ontem, ao votar, você pensou em que Brasil você e seus filhos irão viver?

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