Batalha campal

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Antes de um minuto depois que as luzes se apagam, começa o zunido. Um, dois, três, quatro pernilongos passando alternadamente próximo aos meus ouvidos. Já ciente que não faria efeito o remédio milagroso vendido nos supermercado e ligado na tomada, que promete sono tranquilo, pego a raquete. Eu, que nunca me imaginei jogando tênis, no máximo pingue-pongue nos tempos de colégio, me sinto o próprio campeão de Grand Slams Rafael Nadal. Golpes certeiros de um lado e de outro, com troca de mãos, estalando, estorricando e jogando ao chão esses infelizes. Já previa essa contenda inicial ocorrida antes que eu pegasse no sono e, liquidada a fatura – um dois, três, quatro mortos – pensei, agora consigo dormir. Antes de um minuto depois de eu apagar novamente as luzes, reaparecem os zunidos que não eram dos pernilongos mortos. Decido reiniciar a operação com a raquete e vejo que jogar tênis parece não cansar tão rápido. Mas lá pela oitava vez naquela noite em que a história se repete, não são as mãos que estão cansadas, a cabeça é que inicia aquele banzo de tentar e não conseguir dormir. Reconheço que a estratégia militar dos pernilongos é muito bem-arquitetada. Eles chegam em pequenos grupos, e, se o primeiro pelotão é abatido, pouco depois vem novo pelotão, e assim sucessivamente. Uma operação infalível para cansar a vítima até que ela apague de vez e esses insetos-vampiros ataquem com liberdade. Felizes (para eles) os que ficam nos últimos pelotões, podem desfrutar de um combatente combalido e com sangue doce de tanto esforço. Naquela manhã seguinte até que não houve nenhum que eu acertasse e depois visse, no que restou dele, a mancha vermelha do meu sangue. Mas em outras ocasiões isso já ocorreu. Se o cidadão não consegue dormir, irritado com os zunidos incessantes, durante o dia enfrenta a rotina como um zumbi, meio grogue, sem entender o que estão falando do seu lado. Não deu certo durante a noite anterior nem aquela manobra de, depois do cansaço das raquetadas, tentar esconder todo o corpo com o cobre-leito e fazer de conta que não está ouvindo os zunidos. Pois o sono não se estabiliza, assim como o cobre-leito desprotege com os movimentos incontroláveis do corpo, e de manhã vemos nas manchas pela pele que os pernilongos de fato venceram essa batalha campal. Difícil é imaginar como será esta noite.

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