Como Fernando Pessoa ganhou um prêmio de 5.000 escudos

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Escrevi há tempos quatro crônicas sobre a vida e a obra de Fernando Pessoa, com base na notável biografia “Estranho estrangeiro”, do francês Robert Bréchon. Mas não resisto à tentação de escrever uma quinta, contando a história do prêmio que FP recebeu pela publicação de “Mensagem”, único livro em português que organizou, revisou e publicou em vida. E que praticamente ninguém leu na época. HORÓSCOPO MAL FEITO Astrólogo fascinado pela numerologia, Pessoa fez o próprio horóscopo, com base nos dados de seu nascimento: 15 horas e 20 minutos de 13 de junho de 1888. Só que ele próprio não tinha certeza dos minutos. Ainda assim, admitiu como verdade que morreria em 1937, como determinava o horóscopo. Outro astrólogo português, Paulo Cardoso, refez os cálculos, alterando o horário do nascimento para 15 horas e 22 minutos, chegando à conclusão de que FP morreria no dia em que de fato morreu: 30 de novembro de 1935. ANOS FATÍDICOS Inúmeros dados relevantes, todos fundamentais para sua vida e obra, mostram que os anos terminados em 5 foram em algum aspecto determinantes. A mãe se casou pela segunda vez em 1895 e, no mesmo ano, a família partiu para Durban, na África do Sul, onde o poeta se educou. 1905: regresso definitivo a Portugal. 1915: Lançamento da revista “Orpheu”, divisor de águas em sua vida e no modernismo português. 1925: morte da mãe, seguida de agudo sentimento de abandono. Assim, de 10 em 10 anos, graves acontecimentos marcaram-no, de modo que algo sério deveria ocorrer em 1935. Mas não sua morte, prevista para 1937. TENTATIVA FRACASSADA FP esteve sempre inseguro quanto à organização e à publicação de sua obra. Mais do que insegurança, mostrava profunda indecisão, pois nenhuma das ordens que se propunha chegava a satisfazer. Dois episódios levaram-no a finalmente se decidir, pela pressão do tempo e pela dificuldade de ganhar a vida. Em 1932, seus rendimentos mensais alcançavam, segundo o crítico Alfredo Margarido, apenas 300 escudos, “que mal chegavam para suprir-lhe as necessidades vitais”, aí incluída apreciável quantidade de bebida. Como estivesse vago o cargo de conservador do Museu-Biblioteca de Cascais, decidiu o poeta candidatar-se. Quase completamente desconhecido, exceto nas rodinhas da vanguarda literária, e sem cartas de recomendação apropriadas (importantes ainda hoje), não obteve a indicação, voltando à vida medíocre de sempre. CORRIDA CONTRA O TEMPO Em 1934, o Secretariado de Propaganda Nacional, dirigido por António Ferro, antigo companheiro do “Orpheu”, instituiu o Prêmio Antero de Quental. Ferro e Ferreira Gomes, amigos do poeta, convencem Pessoa a se inscrever. O tempo era curto. No entanto, “Mensagem” estava pronto desde setembro. Impresso em outubro, foi colocado à venda em primeiro de dezembro, dia em que Portugal comemora a libertação do domínio espanhol, ocorrida em 1640. Havia outra dificuldade: o regulamento exigia que os livros inscritos tivessem um mínimo de 100 páginas. “Mensagem” contava apenas 44 poemas curtos. Para resolver o problema, Ferreira Gomes combinou com o impressor deixar em branco as páginas da esquerda, prática usual em livros de poesia. SUCESSO RELATIVO Até aí, tudo bem. O júri era presidido pelo poeta Mário Beirão, antigo companheiro dos tempos da Renascença portuguesa, que se tornara salazarista ferrenho. Só que, na escolha do vencedor, chegou-se à conclusão de que o livro de Pessoa, hermético e profundo, não cumpria o principal requisito do concurso, de propaganda do Estado Novo e de exaltação do nacionalismo à moda de Salazar. Resultado: o primeiro prêmio foi dado ao padre Vasco Reis, pelo livro “Romaria”, cabendo a “Mensagem” o prêmio de segunda categoria, destinado não a um livro, mas a um único poema. António Ferro não era membro do júri, mas a autoridade máxima não só do certame como do Secretariado. Para não ofender Mário Beirão ou o padre Vasco Reis nem desagradar o amigo Fernando, decidiu que a este caberia também a quantia de 5.000 escudos, igual à do primeiro prêmio. VALORES ABSOLUTOS Relata o biógrafo que Fernando Pessoa se mostrou satisfeito com o acordo. Tanto que chegou a publicar, no “Diário de Lisboa”, em janeiro do ano seguinte, um artigo de louvor ao “poema adorável”. Nele, escreveu: “O nosso catolicismo é (...) uma meiguice religiosa, preguiçosamente incerta do que em que realmente crê. Por isso, o nosso vero Deus Manifesto é, não o Deus uno e trino, ou qualquer das Pessoas da Trindade, mas um Cupido católico chamado Menino Jesus. (...) Quanto ao Diabo, nunca um português acreditou nele.” Não se sabe se o “admirável artista”, como Pessoa se referiu ao padre, gostou da crítica. O certo é que, para quem ganhava 300 escudos por mês, 5.000 davam para viver quase um ano e meio, mergulhado em poemas, cigarros e bagaceira. O problema foi que, tendo errado o próprio horóscopo, no final de novembro desse mesmo ano FP, depois de sofrer terríveis cólicas hepáticas, morreu às oito e meia da noite do dia 30, de cirrose ou pancreatite aguda. O destino lhe furtara os dois anos com que contava para organizar a obra.

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