Tristemente atual

Criada há sete anos, “Aqueles Dois” provoca discussão sobre preconceito e identidade sexual

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Trajetória. Desde 2010, peça “Luis Antonio – Gabriela” conta a história de travesti de meia-idade pelo Brasil
Bob Sousa / divulgação
Trajetória. Desde 2010, peça “Luis Antonio – Gabriela” conta a história de travesti de meia-idade pelo Brasil

Na última vez que os atores da Cia Luna Lunera estiveram em São Paulo para apresentar a peça “Aqueles Dois”, depararam-se com a pergunta de um jornalista que causou uma mistura de estranhamento e incredulidade no grupo: “Mas por que tratar de um tema tão bem-resolvido”? O incômodo vem do fato de que, para os atores, a peça de maior sucesso da companhia, inspirada em conto homônimo de Caio Fernando Abreu (1948-1996), escrito na década de 1980, aborda temas ainda tristemente atuais, como o preconceito originado da diversidade sexual. Fatos recentes provam isso: o assassinato brutal de João Donati, 18, em Inhumas, região metropolitana de Goiânia; a morte da travesti Karen Alanis, 23, em Caçapava, vítima de transfobia; e ainda o discurso de ódio do candidato à Presidência Levy Fidelix (PRTB), no qual convoca, em rede nacional, a maioria (heterossexuais) para enfrentar a minoria (LGBT). “Aqueles Dois”, em cartaz no Teatro João Ceschiatti até o fim da semana que vem, conta a história de Raul e Saul, dois homens que chegam a São Paulo para trabalhar na mesma repartição e desenvolvem laços de afeto com o passar do tempo. A relação, porém, é livremente interpretada por colegas de trabalho, sustentados naquilo que chamam de moral e bons costumes. “Caio Fernando foi muito sensível na forma de contar essa história que trata de um encontro de almas no ‘deserto de almas’”, diz o co-diretor da peça, Zé Walter Albinati. Ainda que em nenhum momento fique claro se tratar de um relacionamento homoafetivo entre os dois, isso acaba incomodando os colegas de trabalho. Para o mestre em arte e tecnologia da imagem e ator Igor Leal, o trunfo da peça encontra-se justamente na sutileza da relação dos protagonistas. “A perspectiva da peça foca nos protagonistas, que não assumem uma identidade sexual e geram uma saudável confusão em quem vê. Eles não se prendem a normas gays, como de terem que se apresentar como passivo ou ativo. Dessa forma, mostram que a masculinidade pode estar em lugares diferentes de prazer daqueles propagados pela normatividade”, diz Leal. Ao tratar de temas como a homofobia e a identidade de gêneros, “Aqueles Dois” acaba provocando uma identificação com o público. “A trama é construída utilizando elementos do cotidiano massacrante, de forma muito certeira, principalmente quando trata do olhar do ‘outro’, que julga a todo momento. Isso faz com que o público se identifique com o personagem”, afirma Marcelo Souza e Silva. Para o ator e diretor Odilon Estevez, do Luna Lunera, a reflexão sugerida por “Aqueles Dois” é mais profunda. “Independentemente de serem héteros ou gays, eles estabelecem uma relação de afeto que é algo maior do que raça, idade ou gênero, é a construção do amor, o reconhecimento de um no outro. Isso é algo universal”, diz Outro fato que contribui para a reflexão sobre a masculinidade proposta pela peça está no formato. “São quatro homens seminus que se encostam o tempo todo sem se preocuparem em mostrar qualquer identidade para o público”, afirma o pesquisador, que conclui: “Com tudo isso, a peça acaba exigindo do espectador uma reorganização simbólica da construção sobre identidade sexual”. QUEM ASSINA A CARTA? O momento que melhor invoca a reflexão sobre o preconceito em “Aqueles Dois” está nos últimos minutos da encenação. Mais especificamente na passagem em que o chefe da repartição, onde os protagonistas trabalham, recebe uma carta dos demais funcionários. Porém, não se sabe ao certo quem é o remetente, já que ela é assinada pelo “defensor da moral”. A grafia da assinatura, assim como todo o conteúdo da adaptação, respira ares contemporâneos. “Quando a gente começou (a elaborar a peça) não conseguíamos nomear quem era esse assinante. Mas depois de pouco tempo ficou claro quem são os remetentes e que esses mudam de tempos em tempos”, diz o ator-diretor da peça Odilon Esteves, que exemplifica: “Desde que estreamos, em 2007, até aqui, pessoas públicas como Miriam Rios, Silas Malafaia, Ana Paula Valadão, e tantos outros vêm expondo suas opiniões contra os direitos dos LBGTs. Esse povo todo assina essa carta”, revela. As opiniões desses “remetentes”, ao lado do desfecho da peça, ilustram como essas pessoas, usualmente alicerçadas em mandamentos religiosos e em uma moral conservadora, influenciam as questões sobres os direitos igualitários e também o modo como LGBTs são tratados em todos os âmbitos da esfera pública. Por outro lado, a peça “Aqueles Dois” também acende nos espectadores a chama da autoindagação de atos e pensamentos discriminatórios que todos podem ter, inclusive os mais liberais. “Ao ver como Raul e Saul são vítimas de olhares perniciosos e preconceituosos, cada um se depara, em alguma instância, com nossas repartiçõezinhas, nossas segregaçõezinhas internas”, comenta o co-diretor Zé Walter Albertini. Para ele, discursos totalitários em relação ao modo correto de comportamento em relação à sexualidade são introjetados em todos os indivíduos desde o nascimento, e tanto a peça “Aqueles Dois” como o filme “Filadélfia”, por exemplo, servem como motor para romper essas expressões obtusas. “Acho que o barato da arte é provocar um ponto de vista, um outro lado, que não é viabilizado somente pelo convívio com outras pessoas. Quando provocado, há um desenvolvimento da forma de enxergar o outro e seu comportamento”, afirma. A afronta com o diferente, explica Albertini, promove a mudança na percepção que nasce em momentos inesperados. “A arte não transforma de imediato. O estranhamento, o incômodo causado por ela é uma semente plantada que nasce depois. Na maioria das vezes, é naquele momento que você está andando na rua, depara-se com alguma situação qualquer e exclama: ‘Ah, então era isso!’”, comenta.

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