Luta contra ditadura forjou caminhos e escolhas políticas de Pimentel

“Ninguém escapava da tortura. Levei choque elétrico, pancadas, afogamento, durante uma semana.”

iG Minas Gerais | Isabella Lacerda |

Pimentel faz visita à milésima obra do Orçamento Participativo, no dia 25 de agosto.
Divulgação/PT
Pimentel faz visita à milésima obra do Orçamento Participativo, no dia 25 de agosto.

Em abril de 1970, seu objetivo era passar desapercebido enquanto lutava contra a ditadura. Ele era Jorge e não revelava seu verdadeiro nome a nenhum “estranho” que aparecesse. Hoje, depois da prisão e da tortura, a realidade é um tanto diferente de 44 anos atrás. O jovem militante clandestino do passado dá lugar a Fernando Damata Pimentel, 63, que tem a chance de se consagrar hoje governador do segundo maior colégio eleitoral do país.

Os chamados “anos de chumbo” e a luta armada são uma das marcas da trajetória de Pimentel. Hoje, não chega a ser um assunto tabu, apesar de as cicatrizes deixadas pelo período não serem facilmente reveladas. “Ninguém escapava da tortura. Levei choque elétrico, pancadas, afogamento, durante um intervalo de uma semana”, conta.

O petista começou a militância enquanto secundarista no Colégio Estadual Central, em Belo Horizonte. Ao lado da hoje presidente Dilma Rousseff, integrou o Comando de Libertação Nacional (Colina), uma das mais famosas organizações políticas do período. Na época, segundo relatos de amigos, o jovem estudante era líder do movimento.

“Apesar de muito jovem, ele era muito decidido, aguerrido e aplicado. Desde cedo queria entrar para a luta armada, sem temer o que viria pela frente. Apesar de mais calado, ele sempre falou a coisa certa, na hora certa”, conta Jorge Nahas, também integrante do Colina e que anos mais tarde passaria a trabalhar com Pimentel na Prefeitura de Belo Horizonte.

Ao lado de Dilma, a principal líder do Colina, o petista passou a dividir o espaço de comando das reuniões de articulação do grupo na capital mineira. No ano de 1968, algumas reuniões chegaram a ocorrer na casa dos pais de Pimentel, o pastor Miguel e a pianista Geralda, na rua Espírito Santo. “Os pais pareciam até bastante tolerantes, mas talvez não soubessem a fundo o motivo dos encontros escondidos”, conta o colega de militância.

De fato, eles não sabiam. A liberdade para as reuniões secretas chegou ao fim pouco depois, em 1969, quando Pimentel precisou deixar a cidade após ser procurado pela repressão do regime. O petista teve que fugir de casa com a roupa do corpo, decisão que o deixou por mais de um ano sem contato com a família.

Da capital mineira seguiu para Porto Alegre, quando participou da tentativa de sequestro de um diplomata norte-americano – ação comum para negociar a soltura de militantes presos pela ditadura. “O sequestro deu errado, tão errado que eles acabaram presos”, conta Nahas. “A prisão do Fernando foi tão importante que passou na televisão”, completa. No Sul, Pimentel ficou isolado por nove meses em uma cela escura, incomunicável, apenas na companhia de uma bíblia.

De volta

Depois de mais de três anos de detenção, Pimentel retornou à capital mineira. Passou a estudar economia na PUC-Minas e, anos mais tarde, se tornou professor concursado da UFMG. “Ele era um professor exigente, mas sempre aberto a debater. Com ele nunca teve essa história de que o professor estava em um pedestal. Falava de igual para igual”, relata o ex-aluno Leonardo Guerra, que mais tarde trabalharia com o petista como assessor no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

Dividindo espaço com as salas de aula, Pimentel comandou a fundação do PT, fato que o levou anos mais tarde a ocupar cargos na prefeitura, incluindo sua eleição como prefeito, em 2005. Sua entrada no Executivo municipal ocorreu em 1993, à frente da Secretaria da Fazenda no governo Patrus Ananias. Quando Célio de Castro era o prefeito, Pimentel liderou pastas como Governo e Planejamento. A partir de 2001 se tornou vice-prefeito, o que abriu as portas para disputar a eleição anos mais tarde.

Primeiro prefeito eleito no primeiro turno na capital, sua gestão foi bem-avaliada devido a projetos sociais, entre eles o Vila Viva. A atuação lhe deu a marca de “prefeito bom de serviço”, slogan usado na campanha deste ano.

Nos mais de dez anos em que esteve ligado à prefeitura, Pimentel manteve ao seu lado antigos amigos de militância e universidade. Muitos se tornaram secretários, como o ex-procurador Marco Antônio Rezende. “Apesar de não parecer, ele é uma pessoa muito emotiva. Numa conversa séria, ele tem a mania de fazer uma piadinha”, conta Rezende.

Mas o assunto que mais emoci<CW-40>ona Pimentel é a família. “Quando foi ministro e se mudou para Brasília, reclamava que ficava longe dos filhos Matias e Irene”, diz Rezende. Já seus maiores divertimentos são os mesmos: idas ao Mineirão para os jogos do Cruzeiro e a bons restaurantes”. Em contrapartida, falar da sua vida pessoal e dar entrevista à imprensa não estão na sua lista de hobbies preferidos. 

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