A urna esqueceu o verde

iG Minas Gerais |

Hoje finalmente acaba o suplício da campanha eleitoral, pelo menos a corrida pelos legislativos estaduais e federais. Um segundo turno para presidente parece inevitável. Eu imagino que muita gente chegue a esse dia com uma sensação de náusea por ouvir à exaustão as velhas promessas vazias e empacotadas de uma forma ofensiva à inteligência e à dignidade da população. Se política existisse realmente para servir o país, a única preocupação deveria ser o país, e não os partidos, seus agentes e suas políticas. Não é à toa que a democracia em seu modelo atual vive uma crise de representatividade. O que é claro olhando o programa dos candidatos em geral é que o meio ambiente foi jogado para escanteio pela maioria dos candidatos e seus militantes, salvo algumas exceções. O que se ouve é um discurso genérico sobre sustentabilidade que não significa absolutamente nada. Ouve-se apenas um ruído inócuo para atrair alguns eleitores com alguma preocupação ecológica. Mas a população é cumplice disso. A notícia de que o desmatamento na Amazônia continua dizimando milhares de quilômetros quadrados de floresta por ano, que a nascente do rio São Francisco secou, que a água está acabando etc., não provoca ultraje, não atrai milhares de pessoas às ruas como o preço da passagem de ônibus. Quando o Brasil se recusou a assinar uma carta de intenção rumo ao desmatamento zero na convenção do clima em Nova Iorque, a reação foi quase imperceptível. As redes sociais não tremeram por causa disso. É fato conhecido que o desflorestamento da Amazônia é a maior fonte de emissões do Brasil e uma das causas da seca no sudeste que está deixando São Paulo e outros lugares sem água. O que é necessário para fazer as pessoas se importarem com o meio ambiente, sendo que elas já sentem na pele os efeitos do caos climático, como no caso das enchentes? O ambientalismo precisa urgentemente de um gênio de marketing e comunicação de massa. Talvez toda essa apatia seja explicada pelo fato de as pessoas focarem mais aquilo que está mais entranhado em seu imaginário pessoal, daí a ênfase tão grande em questões morais e econômicas. O meio ambiente para muitos é uma questão difusa, talvez incompreensível, algo que acontece longe, o que é uma ilusão, obviamente, já que somos parte dele, mas uma ilusão criada por nosso distanciamento da natureza, ignorância da rede planetária na qual existimos e uma ideologia que valoriza o ter. Niilismo e consumismo juntos são como kryptonita para a natureza. A política, em toda a sua mediocridade e irresponsabilidade com as pessoas e o planeta, ignora o meio ambiente e coloca em risco a vida de futuras gerações humanas e da biodiversidade. O povo, por não cobrar de seus representantes uma atuação mais forte nessa área, se joga nesse kamikaze coletivo. Aguardemos mais enchentes e secas. Se depender do resultado dessas eleições, qualquer que ele seja, o planeta e seus tripulantes estão fritos. Lobo Pasolini é jornalista, blogueiro e videomaker. Ele escreve sobre energia renovável e questões verdes para www.energyrefuge.com e www.energiapositiva.info

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