Tolerância zero para a corrupção

Aécio Neves candidato à Presidência (PSDB)

iG Minas Gerais |

“No meu governo, corrupto não vai ser tratado como herói. O governo do PT afronta os brasileiros ao afirmar que o mensalão não existiu”
DANIEL SCELZA/ESTADÃO Conteúdo
“No meu governo, corrupto não vai ser tratado como herói. O governo do PT afronta os brasileiros ao afirmar que o mensalão não existiu”

A convite do jornal O TEMPO, o candidato à Presidência da República pelo PSDB, Aécio Neves, respondeu a uma série de perguntas sobre seus projetos para Minas e o Brasil caso seja eleito. As mesmas questões foram enviadas às candidatas Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PSDB), que não quiseram participar da entrevista. 

Tem alguma atitude que o senhor gostaria de não ter adotado a frente do seu governo em Minas? Nenhum governo é perfeito nem consegue fazer tudo o que precisa ser feito. Nem tudo o que o governante gostaria de fazer ele consegue fazer. Governar é fazer escolhas todos os dias, e algumas delas são muito difíceis. Mas, quando penso no nosso governo em Minas, penso com alegria. Não tenho dúvidas de que temos avanços extraordinários para comemorar com os mineiros. A desigualdade em Minas caiu mais do que a média nacional. É claro, por exemplo, que a saúde precisa continuar melhorando muito no Estado. Mas não é pouco podermos dizer que o nosso trabalho, em parceria com a população, fez do sistema de saúde de Minas, segundo o próprio governo federal, o melhor da região Sudeste e o quarto melhor do Brasil. Na educação, apesar de todas as dificuldades, tomamos medidas corajosas que transformaram Minas no primeiro Estado do Brasil a universalizar o ensino fundamental de nove anos. Hoje, a nossa educação fundamental é a melhor do Brasil, segundo avaliações nacionais. Saber que as nossas crianças estão tendo uma educação de melhor qualidade me dá muita alegria. Essa é uma conquista extraordinária e fruto do trabalho incansável dos profissionais de educação, dos familiares e de uma comprometida equipe de governo. Poderia falar em muitos outros avanços, como o maior programa rodoviário realizado no Estado, o Proacesso, que levou asfalto a mais de 200 cidades, mas tenho certeza de que a memória dessas conquistas permanece com muita gente.

Candidato, há mais de uma década a saúde se apresenta como a mais grave demanda da população. Chegando ao Palácio do Planalto, como o senhor pretende enfrentar esse desafio? Vamos enfrentar esse desafio de melhorar a saúde atuando em três eixos. Em primeiro lugar, vamos investir 10% da receita bruta da União na área de saúde. O governo do PT não atendeu esse clamor popular e hoje gasta menos de 5%. Em segundo lugar, vamos adequar o modelo de atenção baseado na implantação de redes assistenciais integradas, fortalecimento da atenção primária, qualificação da Estratégia de Saúde da Família (ESF) e implantação de uma política hospitalar nacional para recuperar as Santas Casas e os hospitais municipais que foram abandonados e estão subfinanciados. Vamos atuar também no eixo da gestão, instituindo mecanismos para a qualificação gerencial, o pagamento por resultados e combateremos, com obsessão, o desperdício e a corrupção. Mas você tem razão. É verdade. Todas as pesquisas de opinião demonstram que esse é o item que mais preocupa os brasileiros. Nem sempre foi assim. Em 2003, quando o PT assumiu o governo federal, a saúde era a principal preocupação de apenas 6% dos entrevistados, segundo o Datafolha. Hoje, o percentual beira os 50%. Isso nos dá a dimensão clara de que houve uma piora relevante nos serviços nesses últimos 12 anos. Uma das razões é que o governo federal diminuiu a sua participação nos gastos do setor, onerando Estados e municípios. Uma das consequências é o sucateamento que temos visto nos hospitais públicos, em especial as Santas Casas. Mais de 13 mil leitos do SUS foram fechados desde 2011. O desafio é enorme, mas tenho certeza de que, com uma equipe competente, planejamento, propostas concretas e corretas, podemos fazer uma grande transformação na área.

O senhor pretende manter o programa Mais Médicos? O meu partido, o PSDB, tem uma característica muito clara: o que é bom para o povo a gente mantém; aquilo que precisa ser melhorado a gente melhora. Isso vale para o Mais Médicos, assim como vale para o Bolsa Família, são programas que serão mantidos. Quanto ao Mais Médicos, é lamentável que o governo do PT venha deliberadamente colocando a população contra os médicos brasileiros como se estes fossem os responsáveis pelas precárias condições de trabalho e, principalmente, pela omissão do governo federal na questão do financiamento da saúde. Nós vamos aprimorar as iniciativas para fixar os médicos, principalmente na atenção primária, criando a carreira nacional médica, com financiamento nos três níveis de governo. Em meu governo, teremos mais saúde, e as preocupações com as condições de trabalho, financiamento e carreiras profissionais serão prioridade.

O PIB da China tem crescido ao ritmo de 10%, o Brasil na média de 2,5% na última década e agora enfrenta uma fuga intensa de capitais especialmente frente às perspectivas de Dilma Rousseff permanecer na presidência. Como analisa essa situação e o que pretende fazer a respeito? Tenho muita clareza quanto a isso, os brasileiros e o mundo perderam a confiança no futuro do Brasil. E isso não é por causa de nós, brasileiros, mas por causa do governo que aí está. A economia do Brasil está em recessão. O país não vai crescer quase nada neste ano e será o pior resultado desde o governo Collor, o pior resultado em toda a América do Sul. Isso significa que o país está produzindo menos, gerando menos empregos aqui e mais empregos no exterior. Essa equação perversa é completada por uma inflação alta. Isso não é justo com um país como o Brasil. Estou certo de que a minha eleição vai gerar um choque positivo na nossa economia, uma reversão de expectativas que hoje estão desfavoráveis em relação ao país. O meu time é o time de quem derrotou a inflação com o Plano Real e modernizou o país, com as reformas e as privatizações. Nossa proposta é atrair investimentos para voltar a gerar aqui os empregos que hoje estão indo para a China que você citou. Fazer uma revolução na nossa infraestrutura. Ter regras claras, respeitar os contratos, fazer cumprir a lei.

Em relação à corrupção que se instalou acentuadamente na máquina pública usando muitas vezes a burocracia de pretexto, como o senhor pretende atuar para reprimi-la? Com tolerância zero. No meu governo, corrupto não vai ser tratado como herói. O governo do PT afronta os brasileiros ao afirmar que o mensalão não existiu. Recentemente ficamos sabendo que, ao contrário do que disse a presidente da República, o diretor da Petrobras que confessou ter desviado milhões da empresa não foi demitido pelo governo. Na verdade, ele pediu demissão e saiu publicamente elogiado pelo governo federal pelos “relevantes serviços prestados”. Que serviços foram esses? Foram prestados a quem? Cada centavo roubado, desviado, é um centavo a menos para melhorar a escola dos nossos filhos, o hospital para atender nossos idosos, a faculdade para formar nossos jovens e mantê-los longe do crime e das drogas. Nos últimos anos, o que vimos foi um governo que se acostumou com a corrupção, foi condescendente com corruptos, que se acomodou com malfeitos. Este tempo tem que acabar. O país não merece isso.

Hoje temos 39 ministérios, considerados pelos analistas como moeda política para abrigar aliados, quantos e quais terá seu governo? Já demos o exemplo em Minas. Todos devem se lembrar que, quando assumi o governo, extinguimos 30% das secretarias existentes, 3.000 funções remuneradas, para reduzir os custos do Estado e investir no que é mais importante para as pessoas. No plano federal, vai ser também assim. Vamos reorganizar o governo, enxugar a máquina pública, cortar pela metade o número de ministérios e reduzir o total de cargos de confiança, que, na atual gestão, muitas vezes vêm sendo usados apenas para abrigar companheiros. Isso não significa diminuir ou relativizar a importância de quaisquer atividades que são hoje executadas por essas pastas. A verdade é que muitos ministérios que aí estão não foram criados com foco na eficiência, no resultado, na prestação de melhores serviços aos cidadãos, mas sim para acomodar interesses, para abrigar a base de apoio político e para atender os vários núcleos que existem dentro do próprio partido da presidente da República. Não desprezo nenhuma atividade, mas o desenho do novo governo e da máquina pública terá o sentido da racionalidade, da responsabilidade e da qualidade dos resultados. Mais do que nunca vale o lema: gastar menos com o governo para investir mais na melhoria da vida das pessoas. Em relação à Petrobras, o senhor pretende “passá-la a limpo” e rever os planos para os recursos provenientes da exploração da camada do pré-sal? Vamos reestatizar a Petrobras, tirá-la das mãos de um grupo que a ocupou para fazer negócios e entregá-la novamente ao interesse público e aos interesses maiores da população brasileira. O que o PT fez com nossa maior estatal nos últimos anos não encontra precedente na nossa história. Quanto ao pré-sal, vamos garantir que seus recursos sejam aplicados em saúde e educação, como aprovado em lei, e investir na tecnologia necessária para o bom aproveitamento do petróleo. Em relação às energias limpas, várias usinas de etanol fecharam as portas nos últimos anos (oito somente em Minas nos últimos três anos). O Estado ainda é o menor consumidor de etanol dentre os vocacionados à cultura da cana. O que o senhor pretende fazer em seu eventual mandato: manter ou mudar as políticas atuais do governo federal? O senhor pretende trabalhar para que os governos estaduais apoiem a competitividade do etanol? Minas está entre os maiores produtores de etanol do país. Não tenho outras palavras para descrever o que aconteceu com este setor nos últimos cinco anos: é um crime de lesa-pátria. O governo do PT destruiu um setor da nossa economia que levamos quatro décadas para construir. O Brasil tem condições de ser protagonista mundial na agenda dos combustíveis limpos, mas o que aconteceu nos últimos anos foi que andamos para trás: hoje importamos etanol dos Estados Unidos e ainda damos isenção de tributos ao etanol que compramos deles. A política de controle artificial da inflação, por meio do controle dos preços da gasolina pela Petrobras, espalhou crise por todo o interior brasileiro. Mais: nos colocou na contramão da sustentabilidade, por incentivarmos os combustíveis sujos, poluentes e que também pioram a qualidade de vida e de saúde nas cidades. Vou dedicar atenção especial ao setor, porque eu conheço bem os problemas que ele enfrenta. Vamos definir uma política de longo prazo, bem planejada, que restabeleça condições mínimas de competitividade para o etanol brasileiro, constituída por equilíbrio na formação de preços, tributação adequada e linhas de crédito que realmente funcionem. Conosco, a crise, que hoje se dissemina por todo o país e já deixou milhares de desempregados, vai ser revertida. Tem alguma atitude em especial que o candidato gostaria de destacar como compromisso com os eleitores? Gostaria de falar, de forma muito direta, com cada mineiro, cada mineira. O que está em jogo neste momento não é apenas uma eleição ou a vitória de um partido político. É um projeto de Brasil. É o futuro de Minas. Temos em nossas mãos a possibilidade de ter um presidente da República mineiro, com suas raízes fincadas em Minas, eleito pelo voto popular, em condições de alavancar a força do nosso Estado, assim como também a força do Brasil. Desde 2003, quando o PT assumiu o governo federal, ouvimos promessas e promessas, como a duplicação da BR–381, as obras do metrô, do Anel Rodoviário. Passaram-se os anos, e elas continuam no papel. Mas o governo do PT não cumpriu os compromissos assumidos com Minas e, pior, atuou contra os interesses do Estado: tirou a nova fábrica da Fiat, vetou benefícios para as regiões mais pobres do Estado, não honrou o compromisso com os royalties do minério. Por outro lado, assistimos no país a uma profusão de escândalos: a Petrobras, os Correios – o que demonstra a imensa crise ética em que o governo do PT mergulhou o país. Meu apoio a Pimenta da Veiga para o governo de Minas tem o objetivo de evitar que esse tipo de prática se instale aqui, que possa ocorrer com as nossas empresas o que tem ocorrido com as empresas sob o comando do PT a nível nacional. Amanhã teremos eleições. Chego até aqui com o sentimento do dever cumprido. Gostaria de poder olhar nos olhos de cada mineiro, manifestar a minha gratidão pelo que construímos juntos até aqui e convocar cada um a defender os valores de Minas, dos sonhos não realizados do passado e da nossa esperança de futuro.

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