Documentarista estreia ficção com presidiários

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Jorge Dias, filho do rapper Mano Brown, atua em “Na Quebrada”
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Jorge Dias, filho do rapper Mano Brown, atua em “Na Quebrada”

SÃO PAULO. Para rodar “Na Quebrada” dentro de um presídio de Guarulhos, o diretor Fernando Grostein Andrade conta que teve de atrasar o almoço dos detentos em meia hora enquanto usava o pátio como locação. “Quando esse filme ficar pronto você vai mostrar pra gente?”. “Palavra de honra”, ele diz ter respondido. Agora que a data de lançamento do filme nos cinemas (16/10) se avizinha, Andrade diz que pretende fazer uma pré-estreia, ainda não confirmada, na cadeia que ele usou de cenário e de onde escalou 12 de seus atores. 

“Eles não precisavam nem de texto, improvisavam sobre a vida deles”, diz o educador Igor Rocha, que desde 2010 mantém o grupo teatral Do Lado de Cá, com presidiários da penitenciária Adriano Marrey. Quando Andrade o procurou, o grupo estava formado: eram remanescentes dos cerca de 60 que se inscreveram no curso.

“Na Quebrada” é a primeira ficção do diretor de 33 anos, egresso dos documentários. Em 2008, Andrade desnudou – literalmente – o cantor Caetano Veloso no filme “Coração Vagabundo”. Em “Quebrando o Tabu” (2011), levou o ex-presidente FHC para dentro dos coffee shops, os pontos de venda de maconha regulamentados pelo governo holandês em Amsterdã.

“Uma coisa chata de documentário é que eu me mato para produzi-lo e na pré-estreia tem sempre alguém que me pergunta quando irei fazer um filme”, brinca Andrade. “Estava cansado de documentários e queria experimentar outras coisas”.

No seu novo filme, ele adentra o universo de cinco jovens da periferia de São Paulo que tentam ascender na vida por meio da arte. A penitenciária em Guarulhos é um dos cenários do longa.

“Na Quebrada” tem exibição hoje, no Festival do Rio. Todas as histórias foram inspiradas em casos reais vividos pelos frequentadores do Instituto Criar, ONG criada pelo apresentador Luciano Huck, irmão do diretor, para dar treinamento em audiovisual a adolescentes pobres.

Andrade diz que buscou fazer um filme que fugisse do ar de propaganda institucional, apesar de o convite para rodar a produção ter partido da própria ONG. “Tanto é assim que o personagem principal é inspirado em alguém que o Criar não conseguiu transformar: um garoto que acabou preso’, afirma.

“Brincante”. Depois de dirigir seu primeiro longa, “Janela da Alma” (2001), e codirigir a minissérie “O Rebu”, Walter Carvalho, que se consagrou como diretor de fotografia em filmes como “Carandiru” e “Central do Brasil”, também lança hoje, no Festival do Rio, seu novo rebento: “Brincante”.

“Brincante” desvenda a obra do pernambucano Antônio Nóbrega, bailarino, músico e pesquisador que há 40 anos se dedica à cultura popular. Carvalho conta que, na primeira vez que viu Nóbrega no palco, no Rio de Janeiro, na década de 1990, isso o levou de volta à sua infância na Paraíba, povoada pelas imagens dos tradicionais caboclos de lança. “Quando eu o vi no palco, fiquei chapado. Pensei que gostaria muito de trabalhar com ele”.

Anos depois, Carvalho estava dirigindo as gravações dos DVDs de três espetáculos de Nóbrega, lançados entre 2004 e 2010, período em que também surgiu a ideia do filme, meio documentário, meio ficção. “Encarnando seus personagens, Antônio faz uma viagem pelo Brasil no filme. Tem muito do artista, então não é ficção, mas também não é um documentário”.

O título do filme é também o nome de um espetáculo e do espaço cultural que Nóbrega gerencia há 22 anos e que corre o risco de fechar as portas depois de o prédio onde funciona ter sido vendido a uma incorporadora.

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